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A Mulher Recife

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Ilustração por Julia de Belli

Ah, Recife… Como uma mulher estuprada, a culpa é sua. A culpa é sua porquê você quis lutar contra os grandes homens. E nessa cidade é errado lutar contra grandes homens.

Ah, Recife… Como numa cena de estupro, ninguém pode te proteger. Ninguém pode te proteger porquê será agredido também.

Ah, Recife… Se todos pudessem te ouvir e te amar. Mas você é uma cidade estuprada, uma cidade que não tem voz e que pra muitos merece a condição.

Ah, Recife… Mas você é uma cidade que tem povo e quem tem povo, TEM VIDA.

Ah, Recife… Enquanto houver povo, haverá luta e não haverá preço que te compre.

-TF é uma pessoa espontânea e divertida, mas que precisa “caotizar” de vez em quando…  São em momentos assim que nascem textos como esse.

Sobre Solidão

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Ilustração: Julia de Belli

“Sobre solidão:

Nem eu me suporto mais.

E todas as minhas gavetas estão vazias…

Meu café já acabou, minha poesia também.

Hoje só tenho esse tempo nublado,

E quando o sol chega,

A solidão me abraça.

Eu sou o desperdício, o não valer a pena, o jogar fora.

Eu sou uma vida que desistiu.”

– TF é uma pessoa espontânea e divertida, mas que precisa “caotizar” de vez em quando…  São em momentos assim que nascem textos como esse.

Caotizar

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Eu nunca quis ser essa artista do caos e saber pintar essa tristeza tão densa. Eu nunca quis ser a ponte de onde as lágrimas se jogam. E disso tudo, disso eu sei: não caibo. Essa necessidade de devorar todas as coisas me degenera. E continuo sem caber, sem saber. A vida é como uma roleta russa, querido… Você não pode simplesmente acreditar que tudo terminará bem. Alguém tem que morrer. Início, meio, fim. Tanto faz. Por dentro, por fora. Não tem importância. E não caibo, não sei e não tenho onde me enterrar. Mas se você prestar atenção, não é tão ruim assim. Morrer significa exceder todos os limites. E talvez nessa exceção caiba tudo o que você ou eu queríamos ter sido. Na exceção cabem todos os ideais. Mas eu ainda continuo sem caber, sem saber, sem enterro e agora sem sono. A vida tem dessas coisas de te fazer ficar acordado sempre. É sempre perigoso, querido, e a vida, que é anterior a nós, sabe disso.
Preste atenção, dear. Eu nunca era igual às outras pessoas (risos). As pessoas dizem que isso é bom. Dizem por que não vivem aqui dentro. Dizem por que são outros. E quando, nessa vida, os outros entendem alguém? Eu não sabia que não era errado ser diferente. A violência devastadora da autonegação é trágica demais para alguém superar. Eu não soupessimista demais nem apocalíptica demais, dear. Você já viu uma bala sair sozinha de dentro de um corpo? Eu disse que era sempre perigoso… Mas eu dormi algumas vezes. Tenho que pagar, não é? E não caibo, não sei, não tenho onde me enterrar, não tenho sono e também sinto alguma coisa. Eu paguei pra ver isso de felicidade (risos). Fiz empréstimos terríveis para isso. Tenho vendido algumas coisas que sinto. Prostituição de sentimentos. Dívidas são dívidas.
O caos é bonito de ler, não é, cher? Viva-o, então. Beba-o. Devore-o. Engasgue-se. Fique com ele. Mas todos os meus são meus. Meu caos é mais trágico do que bonito. Meu caos é inocente, ele acredita. Meu caos é todo regado a buracos negros. Meu caos é tudo. Tudo o que eu queria ser e não fui. Tudo o que me enoja. Tudo o que me atrai. Tudo o que não queria ou não teria coragem de ser. Um caos é todo livre. Todo puro. E tem doído alguma coisa. Tenho falado assuntos de universo. Feito frases curtas. Tenho pontuado tantas coisas, racionalizado tantas outras. Às vezes esqueço a possibilidade de parar sem terminar.
Percebe como eu mudo, querido? Nota minhas fases, dear? Consegue olhar mais pra dentro, cher? O meu caos, universo, frase pontuada. O meu desespero, a minha chance, a minha morte. Tudo de dentro. E tudo pouco demais para o que eu queria dizer. Palavras miseráveis, poucas, mesquinhas. Minhas. E eu amo. E eu tenho. Tenho pra valer. Ninguém tem nada pra valer, né? “Nada é para sempre”. Nem isso que escrevi. Posso estar feliz amanhã. Note o meu caos de hoje. Ele é único. Cada caos é um caos. Não me diminua com a sua compreensão. Eu sou mais ou menos do que isso. E termino sem caber, sem saber, sem enterro, sem sono, sentindo algo e sem razão. Ainda posso mudar. Estarei bem depois. Afinal, a morte é interior. E interiormente, a possibilidade de ressurreição é infinita. O que é sempre mais válido. Infinitos são caos interiores. Tudo é o caos que você quiser. Ou o que você quiser é o seu caos. Respire.
TF, eu não preciso ser alguém. E cada um que cuide do seu caos. E não me leia, querido.
– TF é uma pessoa espontânea e divertida, mas que precisa “caotizar” de vez em quando… São em momentos assim que nascem textos como esse.