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Separação

 tati - separação - conto

O despertador toca e o marido se vira na cama. O lado esquerdo vazio e os lençóis desarrumados indicam que a esposa já se levantou para o primeiro dia dos dois sem os filhos.

Eu, deitado no tapete, observo quando ele se levanta, ainda tonto pelo sono, e caminha até a cadeira onde deixou as roupas que escolheu na noite anterior.

A esposa ainda está na sala. Está lá desde que acordou. Assim como ele, a mulher não me deu mais de um ou dois minutos de atenção, e ainda assim, com o olhar vago e o toque distante, como se não estivesse em seu corpo.

E ele finalmente se livra do pijama e começa a se vestir. Olha-se no espelho enquanto abotoa a camisa, fitando o cabelo começando a ficar grisalho e as rugas em volta dos olhos. Balança a cabeça para os lados enquanto ataca o cinto, como se perguntasse onde foram parar o vigor e a alegria da juventude.

Saio do quarto e vou até a sala, em busca da mulher. O cômodo enche-se com o mesmo ar pesado do anterior. Ela senta-se à janela, ainda de camisola, com uma caneca esfriando no colo. Também envelheceu, percebo.

E a idade é acentuada pelas olheiras profundas e o nariz vermelho, indicadores da noite de pranto.

O primeiro dos filhos do casal tinha morrido ainda na infância, vítima de uma doença fatal. O segundo fora para o exterior há cerca de dois anos e agora a única filha tinha se casado e ido embora de casa. O casal já fragilizado desde a morte do primogênito, agora se encontrava vazio e insípido.

E então o marido chega na sala, puxando duas malas enormes (que durante tantos anos tinham sido usadas em viagens de família) e sacudindo a chave do carro. O tilintar do chaveiro chama a atenção dela, percebo pela maneira como seu olhar desvia-se do horizonte para o chão do cômodo, mas ela não se vira. Assim como também não olha quando ele pigarreia e tenta falar alguma coisa. A esposa, agora ex, age como se pudesse ignorar a partida.

O marido, silenciosamente, ajoelha-se e faz-me um carinho nas orelhas. Eu o respondo com um ronronar baixo, temeroso por quebrar o silêncio, e o encaro tentando pedir pra que fique. Ele balança a cabeça para os lados novamente me dizendo que não. E como a resposta poderia ser diferente, se naquela casa já não lhe restava nada além da sombra de seu casamento?

Ele sai. Fecha a porta com um “clique” e desaparece. Uma série de soluços irrompe na sala, rasgando a garganta daquela mulher. Chora, mas não se levanta nem leva a caneca aos lábios, apenas continua lá, sentada e encarando o vazio.

E eu, pulo para o sofá e me enrosco, pois sei que naquele dia não há mais nada pra mim além daqueles lamentos.

Não me incomodo. Afinal, o gato nunca recebe mais de um ou dois minutos de atenção…

-Tatiana Araújo: ansiosa, irresponsável e inevitavelmente sociável, Tatiana é aspirante à escritora durante o dia e estudante de alguma coisa nas horas vagas. Não que ela se importe.