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Jonas

Jonas, por DaSilva

Os meninos remelentos que brincam ora com seus carrinhos de rolimã, ora com suas armas verdadeiramente de brinquedo. As meninas inocentemente violadas, com suas chimbras verdes, azuis, incolores e suas bonecas-filhas ou filhas-bonecas. O tráfico na praça central. Pelos becos, os panos estendidos, enquanto alguém corre para avisar algo a alguém de quem não se pode falar. Ver ou ouvir. Pelas ruas, de tranqüilo só os porcos chafurdando em lama, num calor de 37 graus. Os porcos comem o que um garoto jogou fora e o que o outro garoto deseja comer. As verduras espalhadas no Mercado da Produção. Mas o Brejo Lagoento ainda vibra! Com a música que sai de dentro das casas das lavadeiras semi-analfabetas e das mocinhas ainda em trajes escolares. A música que fala de Vela, de Reza, de Santo, de Sexo. O sagrado e o profano. Misturados em um colorido uniformizado, uniformes das crianças e dos operários.

As pessoas saem de suas casas rumo aos seus trabalhos forçados, por um sistema mais invisível do que elas. O carrego no Mercado, a banca de verduras, o tráfico de drogas. Pressa, amor, raiva, calor, fazem seus corpos suarem, pingarem. Uma sensualidade notável, porém rejeitada. E a pela morena do povo se gruda às suas roupas de pano fino (finíssimo, aliás), confeccionadas por uma costureira do bairro. Bete era a costureira de mão cheia… De calos e cicatrizes. Dos vestidos de noiva às roupas das prostitutas.

Bete criou sozinha seu afilhado Jonas. A vida inteira tentando suprir, entre uma encomenda e outra, a ausência da mãe e do pai que haviam sumido no mundo. Para quê? Não sabia muito bem. Talvez faltasse alguma coisa. A lama, a lagoa, o sururu? Ainda estavam lá, desde a infância do menino. O que seria, então?

Talvez fosse normal abandonar aos doze anos de idade o Lar que de Nosso não tinha nada. Não tinha merenda. Era tempo de só esperar e rezar. Mas o moleque já tinha dezoito anos e a reza não adiantava nada. Bete não chorava. Esperava. Mas as noites em que Jonas estava fora a preocupava. Não era nem a solidão que sentia, pois essa sempre esteve lá, mas lembrava da história do Jonas que havia sido engolido por uma baleia lá na época em que Jesus nem havia nascido. Tinha contado diversas vezes essa história ao seu menino em tempos de bem criança, e ele perguntava: “Será que existiam baleias na lagoa Mundaú?”. E os risos se estendiam durante as noites. Mas nessas noites dos tempos de adulto os risos nem chegavam. Jonas estava ocupado em suas redes… De intrigas, conversas de pe(s)cador.

Jonas tinha perdido muito tempo de sua vida andando cego, guiado por não sei quem. Para quê? Não sabia muito bem. Sempre faltava alguma coisa. Faltava o relógio que nunca poderia ter, a loira gostosa que nunca poderia comer, o restaurante que nunca poderia frequentar. Para ele só ficava o trabalho no Mercado ou no Centro ou no Ônibus ou na Rua. Ou? As opções não eram muitas para um menino preto, pobre e fodido. Sem pai ou mãe, criado por costureira católica e fervorosa. Agora não! Hora de mandar o guia de cegos se foder. Hora de Jonas tocar o terror. Não tinha mais medo da história do moço que havia sido engolido por uma baleia lá na época em que Jesus nem havia nascido. Já sabia que não havia baleias na lagoa.

A madrinha já não precisava suprir nada. Agora era ganhar o pão nosso de cada dia e, quem sabe, o filé mignon também. A loira gostosa que tanto queria apareceu. Numa noite, num depósito, no bairro do Jaraguá. Comeu! Saciar a fome é o que há. Pena que ela não aproveitou muito, não estava com fome também. Antes gritou, chutou, bateu, chorou. Mas os seus braços finos de menina de dezesseis anos não ajudaram muito. Facilmente amarráveis. Matar ou largar? Largou. Grande erro? O pai dela era empresário, fazendeiro, dono de terra. Mandava na saúde, na escola, na polícia. Era gente que podia… Roubar e matar e ninguém fazia nada!

Jonas morreu em um conflito entre polícia e bandido. Ou bandido e bandido? Ou culpado e culpado? Mandados, mandantes. Um tiro na cabeça e a reza fervorosa da madrinha na igreja São Francisco de Assis. Morreu de morte mandada e matada. Mas era traficantezinho novo, viciadinho sem vergonha, estupradorzinho de merda. Ninguém ligava, ninguém entendia muito bem. Mas Bete ligou e muito! Só não para a polícia, ou para imprensa ou para um advogado. Ou? As opções não eram muitas para uma costureira, favelada, semi-analfabeta. E ninguém falava nada.

A bíblia já não adiantava mais. Rezar? Aquele lugar continuava na merda desde que se lembrava. Crianças nasciam, cresciam e morriam, assim como o seu Jonas. E esse era o curso natural da vida na Brej’Al. O velho curso dos corpos que afundam e se decompõe no canal da Levada. Lavados e levados pelas lágrimas das costureiras.

Mas Bete tinha que falar! Seu menino não era mau! Mau era quem tinha lhe roubado, antes mesmo de ele ter nascido. O alimento, a escol(h)a, a bicicleta. Mas ela não era louca! Não podia falar a verdade e como o Jonas de bíblia também não falou. Jonas… Não era um bom nome para seu afilhado, ele que sempre fora corajoso. Ela tinha medo, ela não falava. Não queria ir para Nínive pregar a justiça divina. Mas a justiça ali era feita por quem tinha a arma maior. E ela não tinha armas. Ou tinha? A arma de verdade estava guardada junto às armas de brinquedo. Ela sabia, sempre soube. Os policiais estavam ao lado da padaria, no beco cujo nome não é pronunciável. Matar? Morte. É. Jonas não tinha matado e por que ela então? A lama, os mosquitos, as crianças. Bete chorou. Era horrível. Agora podia entender. Foda-se a arma, nada mais adiantava. O que ia adiantar?

A lagoa ainda era bonita pela tarde. Foi até lá. O local de tantos jovens abandonados, que no fundo só querem o que lhe negam. Bete pensou. Na vida que não tinha tido, nas escolhas que não tinham lhe ofertado, nas promessas que tantas vezes escutou.

Ela e o seu Jonas. Dois marginalizados, como o resto do povo que ali era escondido. Do que adiantava gente como ela? Nunca iria saber. Ou iria? Talvez. A arma ainda estava ali, tocando sua pele, seu quadril. A arma fria que antecipa o frio da morte e que guarda uma bala tão quente. Paradoxos, a vida é cheia deles. O que aconteceria se pudesse ver Jonas mais uma vez? Pediria perdão? Tocaria o terror? Não sabia. Mas queria saber se haviam baleias na lagoa. Esperança. A infância recuperada, ou não. Não é? Um tiro certeiro bem na testa, assim como o de seu afilhado. Problema resolvido. E, ao abrir os olhos, a baleia estava lá. Talvez ela cuspisse Jonas.

– DaSilva é formada em Letras, professora e Utopista. Maceioense em pele, calor e fala. Paulista, segundo sua certidão de nascimento. Gosta de andar descalça, tomar sorvete e comer acarajé. Gostar de cerveja, sururu e tapioca. Leitora assídua de Rubem Fonseca, Graciliano Ramos e Álvaro de Campos. Admiradora declarada das pessoas que circulam nas periferias de sua cidade, rostos anônimos cheios  de marcas e histórias que precisam ser contadas.