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Há flores nas rachaduras

há flores nas rachaduras

Talvez a tal chama infinita da esperança seja uma mera forma de os covardes dizerem que não desistiram. Como se desistir fosse covardia e não coragem. Admitir que ainda tem esperança e não lutar a favor de sua causa é desde quando um ato de coragem?
Conrado acreditava que desistir era o meio mais concreto de ser corajoso. Porque abrir mão, abandonar e esquecer, todo mundo faz. Mas desistir é uma possibilidade que só existe para aqueles que lutam.
Conrado hoje tem em sua pele vinte e cinco anos. Seus olhos castanhos não conseguem esconder as suas dores e o cansaço de não desistir de quem se é. Sua boca, que tantas vezes em contato com a minha brincou de sorrir, hoje acompanha silenciosamente os gritos do menino que é homem, os gritos que ninguém nunca entendeu por nunca terem sido expostos.
Conrado só tinha a mim, depois de sua mãe. O amor que eles nutriam um pelo outro era o suficiente para que Conrado nunca permitisse ser o motivo das lagrimas dela. No dia que viu sua mãe chorar jurou a promessa que cumpre até hoje: dedicara ao máximo a não permitir que sua dor machucasse outra pessoa novamente. Nada no mundo teria força o suficiente para fazê-lo machucar quem ama.
Ele lia e isso me fascinava. Cruzei com ele vezes o suficiente dentro de livrarias para saber que tinha a leitura como seu refúgio mais seguro. A sua realidade nunca o agradara e roubar a dos outros era o melhor que sabia fazer. Conrado sabia que cada história que passava por suas mãos o tornava pertencente de uma vida diferente e possivelmente melhor do que a que ele possuia mas quando se tratava de sua mãe Conrado sabia que o mundo em que ela vivia era tão fantasioso quanto os que ele costumava visitar em suas leituras, pois, cada dia no calendário era um dia a menos, mas, ela dizia ainda ter força para fugir do que lhe estava destinado.
Contudo, ele não podia alimentar-se só de histórias, trabalhava. Sem emoção alguma. Trabalhava com o que lhe parecia talvez a melhor coisa do mundo treze anos atrás. Era o suficiente para cuidar de sua mãe e comprar seu passaporte para o mundo que o agredia, mas não iludia.
Conrado viveu assim até o dia que o mundo o fez lembrar que ninguém se isenta da sina que é viver, ninguém burla as leis que estar vivo nos impõe.
Tinha apenas meu número na carteira, junto dos cem reais para emergências, e eu sabia que nunca se desfaria da única possibilidade de contato entre nós. Conrado me ligou depois de três anos, depois de três infinitos anos sem ouvir sua voz chamar diretamente por mim. “Eu preciso de você”. Foi a única coisa que ele conseguiu falar depois de ter certeza que a voz do outro lado era a minha, e é claro, eu estava lá para ele. Sabia onde o achar, sabia que um dia sua realidade inerte seria abraçada pela dinamicidade do mundo que tanto temia, e eu estaria lá.
Conrado foi a única pessoa que invadiu meus muros. Ele não pediu pra entrar. Nunca me disse “oi” ou perguntou se podia sentar do meu lado. Nunca fez nada do tipo de coisa que qualquer pessoa normal faria quando acha que pode construir algo com outra. Nós nos esbarramos, colidimos e nos invadimos. Como uma barreira que desmorona e invade as casas, destruindo tudo de sólido e abrindo brechas obrigatórias para a continuação da vida, abrindo rachaduras onde nem paredes existem, fazendo queimar a esperança e a fé que muitos dizem ter como combustível para viver.
Ouvi em algum lugar que em tudo há rachaduras e é através delas que a luz acaba entrando. Conrado demoliu minha casa, mas abri uma rachadura nele e a luz, nesse caso, chama-se esperança. Por muito tempo achei que falhei, mas ele, sem perceber, me provou que não.
Conrado se dividiu comigo por quatro anos, até o dia em que ele me disse não aguentar mais lutar contra si mesmo. Seus demônios talvez fossem maiores do que eu pensava. Ele não queria mais me ver, não achava justo que eu gastasse meu tempo com alguém que não tinha nada a me oferecer, além de suas próprias frustrações. E negou me amar dizendo que não se ama outro quando não ama nem a si mesmo. Lamentei profundamente ver que ele mentia, e sabia disso.
Sexta-feira, 16h, varanda do Paço Alfandega. Ele estava lá, eu também.
Não era novidade que Conrado não havia mudado tanto. Além de alto e magro, o bege de sua pele continuava calmo. O peso de seus olhos mantinham toneladas sob seu ombro que erguia com um certo esforço. Seus cabelos tinham a forma de sempre, no entanto andavam desgrenhados como se o único consolo para seus fios fossem o afago que encontravam em meus dedos.
Mas, para ele, eu era novidade, era como se não esperasse nada além de desprezo por ter me negado sua permanência. Eu continuava a mesma. Talvez com três anos tristes e saudosos nos ombros, mas eu era a mesma Júlia a quem ele amava.
Seus olhos castanhos e famintos percorreram cada centímetro do meu corpo, as curvas que o vento desenhava no meu vestido faziam nossos cheiros se misturarem, e sentir seus olhos em mim daquela forma depois de tanto tempo era a maior prova de que ele não só me amava como ainda me ama. Acima de tudo, Conrado tinha para consigo o amor que guardava para mim.
Senti seus braços em minha volta por segundos que me fizeram pensar que ele encontrava em mim a segurança que o mundo nunca havia lhe proporcionado.
Conversamos até o anoitecer. Conrado me disse, entre outras coisas, que o estado de sua mãe havia se agravado. O câncer em seu pulmão havia se alastrado pelo seu corpo, e cada hora que se passa é a hora mais próxima de sua morte.
Percebi então que minha presença ao seu lado era tudo o que ele precisava e poderia ter, pois todos os amigos que tinha estavam presos nas páginas que tanto amava e que, naquele momento, faziam-se inúteis.
Por fim, nos despedimos, e, apesar de termos tratado de um assunto delicado, conseguimos sorrir um pouco. Sorrimos simplesmente por estarmos juntos. As coisas subtamente se tornavam leves.
Dias depois, Conrado bateu em minha porta. Seus olhos estavam mais nublados do que nunca e eu estava disposta a permanecer ao seu lado durante toda a tempestade. No dia seguinte, nos encontramos no enterro. Cada flor, abandonada nos túmulos que compunham o nosso caminho, choravam junto comigo a dor de não ter estado ao lado dele.
Por mais lamentável que seja o modo como retornamos um para o outro, compreendíamos que nossos laços nunca deveriam ter sido desatados e nossos nós permaneciam.
A morte de sua mãe o levaria a loucura caso Conrado não tivesse me encontrado. A esperança que residia em seu peito bordava meu nome nas linhas de sua vida.

-Giselle Cahú: Meus muros são detentores de minhas cores e todas as cores convergem ao azul. Rabiscar versos e frases são maneiras fluidas de fixar tudo o que habita em mim, mesmo que me falte. Cahú em Tupi é rio que corta a mata. Gosto de pensar nesse como o único significado. Os traços nos papéis são as correntes que conduzem a mim.

-Caroline Falcão: A melhor definição que encontrei sobre mim se resume em duas palavras; som e silêncio. Nasci surda, vivo no meu silêncio, porém, prefiro enlouquecer nesse mundo barulhento. O som me fascina, o silêncio me agride, o som me encanta, mas o silêncio insiste em morar em mim. Sou mais o canto dos pássaros do que a voz que insiste em permanecer nos meus pensamentos.

O dia que amanheceu sem você

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Hoje o dia amanheceu cinza. Estava mais escuro que teus cabelos, mais calmo que tua alma e mais lento que seu ódio. Ele amanheceu, mas eu não dei nenhum sinal de ânimo. Ele amanheceu e eu não senti seus ventos.

Olhei para a janela, havia uma luz que atravessava o quarto em forma de ondas que dançavam de acordo com a cortina. Então fiquei olhando para o fundo do nada, tentando achar motivo para levantar e enfrentar os monstros do cotidiano. Não achei. Deitei e olhei para o teto. Parecia se mover em moinhos, dava pra sentir os detalhes se comunicando entre si, tentando me dizer algo… Mas não conseguia entender.

Do meu quarto dava para ouvir tudo o que se passava pela rua. Os motores dos carros, o passo apressado das pessoas em direção ao trabalho, a mãe gritando com o filho, as declarações de amor, as de ódio, o cantar de desespero do pássaro engaiolado. Quase tudo. Então ouço batidas arrítmicas na porta pulsando raiva. Quando abro, vejo a loucura a minha frente, peço para entrar. Puxo duas cadeiras e sentamos frente a frente se encarando. Acendo um cigarro e começo a fumar; ela não fala nada, não se expressa de forma alguma, mas consigo entender seu joguinho barato de cinismo e covardia. De tragos em tragos, ela se levanta, me olha e fala com um assovio tímido e ínfimo que hoje é um belo dia pra não morrer. Quem sou eu para contrariar a loucura? É melhor ficar no meu quarto.

Anoiteceu e eu não saíra de casa neste dia. Por acaso do destino, o céu estava limpo, tinha estrelas e a lua estava no seu ápice. Achei um telescópio no quarto do meu irmão. Montei-o, e mirei sem direção alguma; estava apenas querendo olhar o mais longe que pudesse. Vi uma janela, vi seu quarto, vi você olhando a lua enquanto seu cabelo dançava com o vento; vi sua boca falando coisas que não consigo interpreta, e vi que meu sossego estava precisando da tua bagunça sentimental. Senti que não te conhecia mais, senti que nossa sintonia estava bagunçada; que nossos corpos se estranham, que nossos olhos jamais se namoraram. Então voltei pra cama e deitei a espera de mais um monótono cotidiano que virá. E a ampulheta da vida se carregará da areia cósmica sentimental que é o amor de novo, e de novo, e de novo, até morrermos.

Bem, quem sou é uma questão que me tortura há tempos. Só posso dizer que sou estudante de História e nas horas vagas escrevo e vivo. Tenho 19 anos e pretendo ser professor. Simpatizo com poetas sacanas e marginais, pois gosto das palavras que saem da raiva, dor, ódio, angustia, ócio e sofrimento. Pra mim, são os melhores poemas.

Eita, Giovana

eita giovana

Eita, Giovana!
Tô deixando uma mensagem só pra avisar
que nada parou.
Nem eu,
nem o automóvel.
Foram só as rodas.
Chega de falar sobre poesias,
e trabalhar em redondilhas com
8
8…9
9…mil sílabas.
A cabeça dói.
E não precisa escrever nenhum poema
sobre a Bahia
Se você
não
foi lá
Não vai mais, Carlos! Teu forninho caiu!

Meu pequeno Pote de Vidro

Meu pequeno pote de vidro

Hoje eu descobri algo que já suspeitava faz um tempo. Estou perdida e não faço mais a mínima ideia de quem sou. Depois dessa “epifania”, parei para pensar e decidi listar mentalmente tudo o que sempre pensei ser o que me definia. Mas consegui, em pouco tempo, reparar que não tenho sido nada parecida com o que pensava. Aí me veio a pergunta mais óbvia: Quem sou eu?

Aprofundando, também percebi que isso tem sido verdade por um bom tempo, mas estava ocupada demais fugindo e evitando pensar sobre o assunto. Descobrir isso me incomodou muito e o pior foi perceber que fugir tem sido parte de mim desde… Sempre.  Só que essa parte, infelizmente, não se foi.

Ver uma pessoa insatisfeita com o modo como sua vida está não é novidade. É bem comum, inclusive. Mas reparar isso em si mesma e ver que não está fazendo nada sobre isso é simplesmente triste. Tentei, então, identificar quando tinha sido essa mudança, ou o que tinha causado isso. Consegui, facilmente, encontrar o momento. E esse momento me fez refletir mais profundamente ainda. Imaginei a vida como sendo um lindo pote de vidro que naquele momento quebrou e ficou em cem pedaços pelo chão. Me Lembro de não ter vontade de recolher os pedaços e recompor o pote, pelo contrário, a vontade foi novamente de fugir, que, nesse caso, seria escolher o caminho mais fácil: recolher os pedaços e jogar no lixo. Desistir de tudo. No entanto, não desisti. Consegui reconstituir uma parte do meu pequeno pote e isso foi suficiente para me fazer feliz… Por um tempo.  Esse breve momento de alegria me fez esquecer do que ainda faltava ser reconstruído e querer viver apenas com o que já estava feito. Mas não era suficiente. Logo me dei conta disso e novamente recorri à velha solução: fugir. Só que, dessa vez, o fugir não seria jogar fora, mas sim acomodar, ignorar e tentar esquecer. Mas não deu certo.

Não se pode viver com apenas um pedaço, pois nunca será verdadeiramente suficiente e uma hora ou outra você terá momentos como esses em que percebe isso. Mas a diferença é feita quando a resposta a esse pensamento muda. Quando, em vez de fugir, te der vontade de lutar, de completar e se sentir completa. E, para isso, é preciso coragem e força. Se bem feito, será como nunca tivesse sido quebrado. Mas, felizmente, nunca será perfeito. Você sempre verá as marcas, e isso é o melhor porque te fará lembrar as três coisas mais importantes: Você já foi quebrado antes, poderá ser novamente e, mais importante, você já teve a força que precisou para se completar e essa estará sempre com você!

Janeiros em Marços

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E eu continuo aqui.

Neste mesmo assento roxo, ouvindo as mesmas músicas, tentando tirar da cabeça um certo alguém. É que às vezes a vontade de ficar é mais forte do que a coragem de sair.

Pois bem, cheguei a uma conclusão – e espero eu que a mesma seja definitiva: eu sairei da trança, não como tentativa de fugir, mas de expandir em direção a outros horizontes. Dar lugar a outras pessoas.

Quem sabe eu encontre alguém… Não sou tão cabeça-dura a ponto de ignorar meus sentimentos e virar as costas para a realidade. E este é um momento definitivo: é um ponto final.

Há dois anos, meus Janeiros e Fevereiros, mais do que os outros meses, têm sido meses solitários e ruins. Mas hoje, em Março, eu mudo isso. Me prometo mudar.

Não me tornarei uma revolucionária ou louca, mas tentarei encontrar em mim a pessoa que busco ser. Afinal de contas, o segredo é aquele do livro O Pequeno Príncipe: “só se vê bem com o coração”. E é assim que pretendo ver. Viver. Ser.

E assim, eu sei, jamais terei Janeiros e Fevereiros como os que tenho novamente. E se os tiver, saberei superar. Por que a maturidade é uma qualidade (ou um defeito) que só se adquire ao, seja lá o que for, vivenciar.

Agora é hora de me despedir. Uma nova vida me espera.

Não serei nostálgica ou pessimista fazendo votos de encontro no futuro; nem enganadora, dizendo que quero felicidade ou tristeza; ou mesmo individualista, pensando somente em mim: neste momento, eu quero produtividade.

E, então, um “adeus” aos velhos tempos.

– Raquel; Uma garota com foco difuso, espalhado por todas as coisas nesse grande mundo. Apaixonada pela arte, e motivada pela escrita. Espontânea, vibrante e louca pelas coisinhas simples da vida.

O Estranho

O estranho

Ele teve uma ideia, uma que ele mesmo não entendera a logica. Mas sabia que podia funcionar. Era algo tão irracional, tão sem sentido, sem propósito. Mas ele já estava decidido, iria levar a ideia pra frente. Ele aproveitou a noite, que estava mais escura que o habitual, e se aproximou da janela, lentamente, surdamente. Mas nada viu. Logo na noite em que ele se preparara para o encontro, o estranho não apareceu. As luzes de sua casa estavam apagadas, e no caminho de volta ao quarto ele viu o intruso ao cruzar o espelho. Mas não reagiu. Na noite seguinte, quando chegou em casa, se aproximou da janela para apreciar a vista da cidade, com suas luzes acesas. A noite era clara. Não demorou, e o estranho apareceu. Sem hesitar ele ergueu a arma e atirou no estranho. Ele mirou a cabeça, e o acertou, pelas costas. No mesmo instante ele caiu. Morto. Com lascas de vidro cravados em seu rosto. O estranho, com aquele rosto que há tanto tempo rondava a casa. Cruzando em espelhos e janelas. Sem nunca ter se visto, ele não se reconheceu. E morreu. O estranho manteve-se em pé, zombando da loucura de seu semelhante.

-L.P. escreve desde que notou como lhe faz bem e após um pouco de coragem resolveu mostrar o que tinha em si. Tenta muitos estilos de escrita até achar a que lhe cabe melhor, se existir tal coisa.

Intensidade

intensidade

Parei o carro em frente a casa dela. Alguns minutos depois ela apareceu no portão, estava linda. Tinha pernas torneadas e uma bunda incrível. Confesso que nunca fui de ficar olhando para a bunda das mulheres, mas ela tinha algo de especial. Meus olhos foram seguindo-a enquanto dava a volta pela frente do carro, abria a porta e sentava ao meu lado.

Nunca tinha falado com ela, apenas a via de longe andando pela cidade. Tínhamos marcado um cinema, mas um estacionamento vazio em frente a uma loja de conveniências de um posto foi o nosso destino.

O ar estava ligado e o perfume dela circulou com mais facilidade. Um cheiro doce, não daqueles que causam enjoo, era delicado, muito suave. Ela sentada no banco do carona falava mais do que eu. Nunca fui muito de conversar, acredito que um bom proseador é aquele que mais ouve do que fala, sempre preferi escrever, então, disse que talvez eu escrevesse sobre ela depois, ela gostou, sorriu e a deixei falar mais.

Contava-me suas alegrias, loucuras e dores. Eu a encarava com um olhar profundo, queria ver todas aquelas histórias narradas se transformarem em cenas dentro do olho dela, como o desfecho de um filme.

Ficamos frente a frente durante algum tempo. Então, pedi que relaxasse e ela lentamente deitou em meu colo. Ficamos nos olhando em silêncio por cerca de cinco minutos, eu gostei da sensação. Ela parecia gostar de me olhar. Passava a mão no meu rosto, como se o examinasse. Durante esse momento eu comecei a pensar que as pessoas sempre desejam primeiros encontros admiráveis, encantadores. Uma noite, um estacionamento vazio, silêncio, um ar gelado, vidros embaçados, acho que era um bom começo.

Não demorou muito para voltarmos a conversar, o silêncio foi rompido quando ela disse que gostava dos meus traços faciais. A cada palavra proferida, sua boca se aproximava da minha. Aquela pele extremamente macia e delicada. Aquela feminilidade maliciosa. Cada toque e passar de mãos naquelas belas pernas me excitava. Eu reinava, mas me continha. Ainda não estava na hora. Queria descobrir o que mais ela tinha para me contar.

Ela disse que tinha gostado do meu perfume e subiu cheirando meu pescoço vagarosamente, dando leves beijos nele. Toquei seus ombros, deslizei minhas mãos ao longo do seu corpo até chegar à cintura. Aquela é a cintura mais gostosa que já toquei; firme, com uma linda curva.

Segurei-a com força apertando seu corpo contra o meu e naquele momento entregamo-nos um ao outro. O jogo de lábios, o jogo de línguas se tocando foi maravilhoso.

Explorei todo o seu corpo com as minhas mãos. Era maravilhoso. Dei aqueles toques mais gostosos que podem existir naquele lugar quente e melado. Ela se aproximou da minha orelha e deu um longo suspiro seguido de um gemido que me fez mordê-la toda. Há lugares que todo homem deseja em uma mulher. E os lugares de seu corpo que eu desejava, me foram entregues.

Agora estou aqui, descrevendo estas lembranças e excitado novamente. Sentindo o cheiro dos seus lábios inferiores ainda impregnados em meus dedos. Pensando em enviar esse texto para ela.

– Ezra é o pseudônimo de um adolescente calmo e sarcástico de 19 anos que atualmente está no 2º semestre do curso de Direito na Faculdade de Castanhal, estado do Pará. É apaixonado por livros, especialmente os de Charles Bukoswky, e escritor nas horas vagas, além de amar o inglês, francês e alemão. Mantém uma pequena agenda na mochila durante o dia a dia, o qual faz constantes anotações e no final, deixa o sentimento se encarregar de encaixá-las umas nas outras para criar textos. 

Menina

MENINA

“Menina estranha.

Possuía olhos puxados e perdidos, uns cabelos leves e pele suave. Talvez esse seja o porquê de sua cabeça estar eternamente entre as nuvens: nem mesmo o cabelo rubro lhe pesava. Tinha todo e qualquer motivo do mundo para ser feliz e, mesmo assim, agarrava com força a falta de felicidade que consumia lentamente suas entranhas. Sussurrava gritos e berrava baixinho sua tristeza do modo mais doce que alguém podia fazer.

Menina burra.

Causava em mim uma profunda inspiração que me transcendia e me fazia querer escrever até que os meus dedos exigissem descanso. Tinha um olhar esquisito, me lembrava Capitu e Lispector… talvez seria ligeira evolução das duas, porque nem escrevia nem seduzia moços, entretanto perturbava pessoas. Carregava sempre consigo um livro de poesias românticas debaixo do braço e insistia em sussurrar ora ou outra versos desconcentrantes com sua voz embriagada da tequila mais vagabunda.

Menina perdida.

“Tens amor, eu — medo”, suspirou cansada no meu ouvido dia desses. Casimiro não, minha menina, não… , respondi contra a pele do ombro desnudo. Vinha a me oferecer a droga mais destrutiva, e quisera eu ser uma erva, pior, era o seu beijo. Tinha um gosto ácido e ao mesmo tempo doce que me trazia de volta a minha melhor memória da juventude. Sua língua cálida estava me viciando desde o primeiro deslize na minha. “Oh, menina, por que fizeste isso? Agora não tem mais volta, o meu amor é todo teu.”, ela gargalhara na minha cara depois de, aturdido com sua saliva, confessar isso com o meu pior tom apaixonado.

Menina sem alma.

Convidara-me outro dia para dançar bolero e, quando estava chegando ao passo mais complicado, pediu um gole de vinho e fora se deitar. Abaixo do seio esquerdo marcara um aviso de que as-pessoas-sempre-vão-embora para não mais ceder sua confiança ao desconhecido, e ainda tentou escondê-la de mim noite passada. Preferia continuar sussurrando sacanagens contra minha boca a entregar seu coração de vez. Parecia o mais seguro a se fazer se quisesse continuar dormindo comigo. Eu a assustava tanto? Era ela quem me metia medo, não eu a meter medo nela. Doce desencontro da vida.

Menina assustada.

Estava prestes a me confessar as três palavras mais perigosas do mundo, quando, de repente, pôs-se a chorar e parar a noite mais gostosa de minha vida. Reuniu uma muda de roupas e saiu pela porta da frente, ignorando quaisquer pedidos que eu lhe fizesse para ficar, gritando a plenos pulmões que não ia deixá-la, que ia permanecer ao seu lado, que ia lhe fazer a mais feliz, que nunca amara alguém tanto daquele jeito.

É esse o problema, meu bem. Tens amor, eu — medo”.

Menina tola.”

-Anna Júlia: quem sabe um dia tu deixes de contemplar o Sol do meu olhar e me perder por aí, no ar, meu bem, poderias reconquistar o meu amor desta forma se acreditasses que és quem eu sempre sonhei.

Separação

 tati - separação - conto

O despertador toca e o marido se vira na cama. O lado esquerdo vazio e os lençóis desarrumados indicam que a esposa já se levantou para o primeiro dia dos dois sem os filhos.

Eu, deitado no tapete, observo quando ele se levanta, ainda tonto pelo sono, e caminha até a cadeira onde deixou as roupas que escolheu na noite anterior.

A esposa ainda está na sala. Está lá desde que acordou. Assim como ele, a mulher não me deu mais de um ou dois minutos de atenção, e ainda assim, com o olhar vago e o toque distante, como se não estivesse em seu corpo.

E ele finalmente se livra do pijama e começa a se vestir. Olha-se no espelho enquanto abotoa a camisa, fitando o cabelo começando a ficar grisalho e as rugas em volta dos olhos. Balança a cabeça para os lados enquanto ataca o cinto, como se perguntasse onde foram parar o vigor e a alegria da juventude.

Saio do quarto e vou até a sala, em busca da mulher. O cômodo enche-se com o mesmo ar pesado do anterior. Ela senta-se à janela, ainda de camisola, com uma caneca esfriando no colo. Também envelheceu, percebo.

E a idade é acentuada pelas olheiras profundas e o nariz vermelho, indicadores da noite de pranto.

O primeiro dos filhos do casal tinha morrido ainda na infância, vítima de uma doença fatal. O segundo fora para o exterior há cerca de dois anos e agora a única filha tinha se casado e ido embora de casa. O casal já fragilizado desde a morte do primogênito, agora se encontrava vazio e insípido.

E então o marido chega na sala, puxando duas malas enormes (que durante tantos anos tinham sido usadas em viagens de família) e sacudindo a chave do carro. O tilintar do chaveiro chama a atenção dela, percebo pela maneira como seu olhar desvia-se do horizonte para o chão do cômodo, mas ela não se vira. Assim como também não olha quando ele pigarreia e tenta falar alguma coisa. A esposa, agora ex, age como se pudesse ignorar a partida.

O marido, silenciosamente, ajoelha-se e faz-me um carinho nas orelhas. Eu o respondo com um ronronar baixo, temeroso por quebrar o silêncio, e o encaro tentando pedir pra que fique. Ele balança a cabeça para os lados novamente me dizendo que não. E como a resposta poderia ser diferente, se naquela casa já não lhe restava nada além da sombra de seu casamento?

Ele sai. Fecha a porta com um “clique” e desaparece. Uma série de soluços irrompe na sala, rasgando a garganta daquela mulher. Chora, mas não se levanta nem leva a caneca aos lábios, apenas continua lá, sentada e encarando o vazio.

E eu, pulo para o sofá e me enrosco, pois sei que naquele dia não há mais nada pra mim além daqueles lamentos.

Não me incomodo. Afinal, o gato nunca recebe mais de um ou dois minutos de atenção…

-Tatiana Araújo: ansiosa, irresponsável e inevitavelmente sociável, Tatiana é aspirante à escritora durante o dia e estudante de alguma coisa nas horas vagas. Não que ela se importe.

Bobos

bobos

Caminho de um lado pro outro meio impaciente enquanto te espero. Olho o visor do celular inúmeras vezes, nenhuma mensagem de texto, chamada, ou qualquer sinal seu. Mãos suadas, cabelo bagunçado, cérebro a mil. Vejo que horas são e percebo que você não está atrasado, mesmo assim olho o relógio outra vez, e mais uma, acho que estou meio paranoico com a sua ausência.

A usual situação da rua nada me acrescenta. Ouço o barulho dos carros transitando, as intermináveis buzinas, o ruído das freadas bruscas dos ônibus, ao mesmo tempo que várias pessoas passam pra lá e pra cá, todas muito ocupadas, atrasadas, apenas pessoas. Então, noto o sinal fechado mais uma vez. É quando vejo você do outro lado da rua.

Aceno tentando não aparentar tão desesperado quanto estava alguns minutos atrás, e você retribui sorridente, me presenteando com aquele sorriso gostoso que só você tem. Consequentemente, sinto minhas pernas bambearem e ordeno que elas se mantenham firmes –  mentalmente é claro.

Você se aproxima e nos abraçamos, um abraço apertado, sincero, então, lentamente, nossos lábios se encontram e se perdem num sentimento intenso e delicado, saciando a saudade. Logo, ouço as batidas disparadas do meu coração e sinto um leve frio na espinha, definitivamente o meu corpo clama pelo teu. Mas a realidade grita o meu nome, me chamando de volta e a razão prevalece a emoção. É nesse momento que procuro ser sensato e contra todos os meus instintos me afasto um pouco de ti.

Então, de mãos dadas, entramos no cinema, em meio aos diversos olhares dos transeuntes no local. Eu, todo bobo, sorriso de orelha a orelha, sentindo-me imensamente feliz. Nesse instante, olho sorrateiramente para o garoto que roubou meu coração enquanto ele compra os ingressos e percebo que seu sorriso também chega aos olhos, é o suficiente para meu estômago revirar, me fazendo sentir um turbilhão de sensações indescritíveis dentro de mim.

Sentamos exatamente no meio do cinema, é o meu lugar favorito. Levantamos o braço da poltrona para ficarmos abraçados juntinhos e conversamos baixinho enquanto o filme não começa. Sinto-me profundamente realizado, gostaria de simplesmente eternizar esse momento, parar o tempo, ou apelar pra qualquer fórmula mágica que me permitisse viver uma eternidade de momentos como este ao seu lado.

Me descubro planejando um futuro pra gente, sorrio ao nos imaginar daqui a 20 anos, ainda apaixonados… Em seguida, o filme começa. Me envolvo ainda mais em seus braços e fecho os olhos visualizando exatamente o momento que estamos vivendo, a trilha sonora do filme é nossa cúmplice, penso que foi escolhida especialmente para nós. Nossos corpos se  procuram, meu olhar encontra o teu, e nesse instante nossos lábios se encontram em ávidos beijos, meu corpo estremece e um intenso calor percorre todo o meu ser, eriça os pelos de meu braço e da minha nuca. É inevitável te querer.

A saudade vai se esvaindo, dando lugar a paixão. São dois corações batendo como um, um sentimento puro e inexplicável compartilhado por duas almas tão diferentes e tão semelhantes, ao mesmo tempo. Somos dois apaixonados, de mãos dadas, no escurinho do cinema, prontos para uma eternidade juntos.

– Edmilson Rodrigues é aspirante a escritor e jornalista. Chocólatra, cinéfilo, adora viajar e conhecer pessoas. Cheio de sonhos, vive transitando entre os mundos fantásticos dos livros que lê.