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Menina

MENINA

“Menina estranha.

Possuía olhos puxados e perdidos, uns cabelos leves e pele suave. Talvez esse seja o porquê de sua cabeça estar eternamente entre as nuvens: nem mesmo o cabelo rubro lhe pesava. Tinha todo e qualquer motivo do mundo para ser feliz e, mesmo assim, agarrava com força a falta de felicidade que consumia lentamente suas entranhas. Sussurrava gritos e berrava baixinho sua tristeza do modo mais doce que alguém podia fazer.

Menina burra.

Causava em mim uma profunda inspiração que me transcendia e me fazia querer escrever até que os meus dedos exigissem descanso. Tinha um olhar esquisito, me lembrava Capitu e Lispector… talvez seria ligeira evolução das duas, porque nem escrevia nem seduzia moços, entretanto perturbava pessoas. Carregava sempre consigo um livro de poesias românticas debaixo do braço e insistia em sussurrar ora ou outra versos desconcentrantes com sua voz embriagada da tequila mais vagabunda.

Menina perdida.

“Tens amor, eu — medo”, suspirou cansada no meu ouvido dia desses. Casimiro não, minha menina, não… , respondi contra a pele do ombro desnudo. Vinha a me oferecer a droga mais destrutiva, e quisera eu ser uma erva, pior, era o seu beijo. Tinha um gosto ácido e ao mesmo tempo doce que me trazia de volta a minha melhor memória da juventude. Sua língua cálida estava me viciando desde o primeiro deslize na minha. “Oh, menina, por que fizeste isso? Agora não tem mais volta, o meu amor é todo teu.”, ela gargalhara na minha cara depois de, aturdido com sua saliva, confessar isso com o meu pior tom apaixonado.

Menina sem alma.

Convidara-me outro dia para dançar bolero e, quando estava chegando ao passo mais complicado, pediu um gole de vinho e fora se deitar. Abaixo do seio esquerdo marcara um aviso de que as-pessoas-sempre-vão-embora para não mais ceder sua confiança ao desconhecido, e ainda tentou escondê-la de mim noite passada. Preferia continuar sussurrando sacanagens contra minha boca a entregar seu coração de vez. Parecia o mais seguro a se fazer se quisesse continuar dormindo comigo. Eu a assustava tanto? Era ela quem me metia medo, não eu a meter medo nela. Doce desencontro da vida.

Menina assustada.

Estava prestes a me confessar as três palavras mais perigosas do mundo, quando, de repente, pôs-se a chorar e parar a noite mais gostosa de minha vida. Reuniu uma muda de roupas e saiu pela porta da frente, ignorando quaisquer pedidos que eu lhe fizesse para ficar, gritando a plenos pulmões que não ia deixá-la, que ia permanecer ao seu lado, que ia lhe fazer a mais feliz, que nunca amara alguém tanto daquele jeito.

É esse o problema, meu bem. Tens amor, eu — medo”.

Menina tola.”

-Anna Júlia: quem sabe um dia tu deixes de contemplar o Sol do meu olhar e me perder por aí, no ar, meu bem, poderias reconquistar o meu amor desta forma se acreditasses que és quem eu sempre sonhei.