HIPOGLICEMI(NH)A

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Doce.

———– Em busca de

doce

————elas percorriam meu corpo hoje.

————E até encontrariam

o doce

————se a vida,

————que não tem

————-(quase) nada

de doce,

————não me tivesse chupado

————–o que um dia em mim

foi doce.

– Ceaga: Confiando na proteção do acaso, andei muito tempo distraído pela estrada da vida. Fui otário! Caí em vários buracos. Hoje, com vários arranhões na derme e na epiderme, sobrevivo, mas de muita coisa me privo. Meus versos eternizam o que eu fui num pretérito (imperfeito), o que sou num presente – que é tudo, menos simples -, e o que um dia eu talvez seja num futuro um tanto incerto.

O dia que amanheceu sem você

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Hoje o dia amanheceu cinza. Estava mais escuro que teus cabelos, mais calmo que tua alma e mais lento que seu ódio. Ele amanheceu, mas eu não dei nenhum sinal de ânimo. Ele amanheceu e eu não senti seus ventos.

Olhei para a janela, havia uma luz que atravessava o quarto em forma de ondas que dançavam de acordo com a cortina. Então fiquei olhando para o fundo do nada, tentando achar motivo para levantar e enfrentar os monstros do cotidiano. Não achei. Deitei e olhei para o teto. Parecia se mover em moinhos, dava pra sentir os detalhes se comunicando entre si, tentando me dizer algo… Mas não conseguia entender.

Do meu quarto dava para ouvir tudo o que se passava pela rua. Os motores dos carros, o passo apressado das pessoas em direção ao trabalho, a mãe gritando com o filho, as declarações de amor, as de ódio, o cantar de desespero do pássaro engaiolado. Quase tudo. Então ouço batidas arrítmicas na porta pulsando raiva. Quando abro, vejo a loucura a minha frente, peço para entrar. Puxo duas cadeiras e sentamos frente a frente se encarando. Acendo um cigarro e começo a fumar; ela não fala nada, não se expressa de forma alguma, mas consigo entender seu joguinho barato de cinismo e covardia. De tragos em tragos, ela se levanta, me olha e fala com um assovio tímido e ínfimo que hoje é um belo dia pra não morrer. Quem sou eu para contrariar a loucura? É melhor ficar no meu quarto.

Anoiteceu e eu não saíra de casa neste dia. Por acaso do destino, o céu estava limpo, tinha estrelas e a lua estava no seu ápice. Achei um telescópio no quarto do meu irmão. Montei-o, e mirei sem direção alguma; estava apenas querendo olhar o mais longe que pudesse. Vi uma janela, vi seu quarto, vi você olhando a lua enquanto seu cabelo dançava com o vento; vi sua boca falando coisas que não consigo interpreta, e vi que meu sossego estava precisando da tua bagunça sentimental. Senti que não te conhecia mais, senti que nossa sintonia estava bagunçada; que nossos corpos se estranham, que nossos olhos jamais se namoraram. Então voltei pra cama e deitei a espera de mais um monótono cotidiano que virá. E a ampulheta da vida se carregará da areia cósmica sentimental que é o amor de novo, e de novo, e de novo, até morrermos.

Bem, quem sou é uma questão que me tortura há tempos. Só posso dizer que sou estudante de História e nas horas vagas escrevo e vivo. Tenho 19 anos e pretendo ser professor. Simpatizo com poetas sacanas e marginais, pois gosto das palavras que saem da raiva, dor, ódio, angustia, ócio e sofrimento. Pra mim, são os melhores poemas.

Sobre “vestir-se”

As palavras precisam sair das gavetas. Esse é o objetivo do nosso projeto, dar vida as letras que mofam em seus esconderijos: nos fundos dos armários, prensadas entre os cadernos. Nossa equipe acredita que as histórias só vivem se forem contadas. E quantas formas de contar um bom texto existem? O Gaveta já trabalhava com imagens estáticas, textos publicados em nossos sites e até no formato de revista, a “Sinestesia”, mas percebemos que ainda não era o suficiente. As palavras existem também em som e nessa forma são muito poderosas. Podem ser narradas, declamadas, expressando emoções em diversos tons.

Refletindo sobre isso chegamos à conclusão de que as letras merecem ganhar todas as “vestes” possíveis. Assim, estreamos agora uma nova dinâmica do Gaveta de Letras. Autores, se preparem, pois alguns de vocês poderão ter suas palavras interpretadas, refletidas em sons e imagens dinâmicas, saindo das gavetas para ganhar o mundo nas vestes que bem entenderem! E que poesia seria melhor, para abrirmos essa linda parte do projeto, do que a de Camila Grizzo, “Veste”?

Disseram-me que deveria escolher qual veste dar aos meus versos é como Drummond? como Leminski? como Cecília? ou autores diversos? Então eu descobri que meus versos são nus, desses que não se vestem de alguém ora é assim, ora assado com ritmo ou …………………………des ………com ….pas ……………sa …….do sem se apossar da veste de ninguém.

– Caipirinha do interior paulista, com 20 anos de idade, me chamo Camila e comecei a escrever para dar forma às abstrações que guardo em mente. Grande entusiasta da vida e amante de música tenho procurado meu caminho entre as pedras do mundo.

Edição: Matheus Fabio

Eita, Giovana

eita giovana

Eita, Giovana!
Tô deixando uma mensagem só pra avisar
que nada parou.
Nem eu,
nem o automóvel.
Foram só as rodas.
Chega de falar sobre poesias,
e trabalhar em redondilhas com
8
8…9
9…mil sílabas.
A cabeça dói.
E não precisa escrever nenhum poema
sobre a Bahia
Se você
não
foi lá
Não vai mais, Carlos! Teu forninho caiu!

Teor de Açucar

teor de açucar

Ok, eu me rendo…

Retiro toda essa farsa,
e a máscara que me disfarça
de menina má.

A verdade é que sou mais doce
do que bolo de festa infantil.
Mas eu tenho medo,
medo desses começos
com meios e fins.

Porque eu só queria um amor
com gostinho de açúcar mascavo
e caldo de cana no deserto.
Um amor que durasse
– quem sabe –
uma vida inteira.

Esse vai e vem me desgasta.
E a conquista é sempre o mesmo ritual.
Amar do começo ao fim
– só um ser –
por acaso, faz mal?

E nessas poucas linhas me rebelo.
E revelo que parte da minha ousadia,
nada mais é do que um coração magoado.
Que depois de ter sido
tantas vezes pisado.
Hoje tem medo de se abrir outra vez.

E assim eu confesso:
Aquele doce que certo dia comi,
virou glicose em meu corpo,
e hoje corre em minhas veias.

Em escala de amor,
meu teor de açúcar é alto.
Diabetes Mellitus.

– Cris Aquino é bióloga por formação e aspirante a fotógrafa por paixão. Não sou poeta, mas rabisco algumas palavras que descrevem os meus sentimentos e o meu dia-a-dia. Escrever é um descarrego, uma terapia.

Meu pequeno Pote de Vidro

Meu pequeno pote de vidro

Hoje eu descobri algo que já suspeitava faz um tempo. Estou perdida e não faço mais a mínima ideia de quem sou. Depois dessa “epifania”, parei para pensar e decidi listar mentalmente tudo o que sempre pensei ser o que me definia. Mas consegui, em pouco tempo, reparar que não tenho sido nada parecida com o que pensava. Aí me veio a pergunta mais óbvia: Quem sou eu?

Aprofundando, também percebi que isso tem sido verdade por um bom tempo, mas estava ocupada demais fugindo e evitando pensar sobre o assunto. Descobrir isso me incomodou muito e o pior foi perceber que fugir tem sido parte de mim desde… Sempre.  Só que essa parte, infelizmente, não se foi.

Ver uma pessoa insatisfeita com o modo como sua vida está não é novidade. É bem comum, inclusive. Mas reparar isso em si mesma e ver que não está fazendo nada sobre isso é simplesmente triste. Tentei, então, identificar quando tinha sido essa mudança, ou o que tinha causado isso. Consegui, facilmente, encontrar o momento. E esse momento me fez refletir mais profundamente ainda. Imaginei a vida como sendo um lindo pote de vidro que naquele momento quebrou e ficou em cem pedaços pelo chão. Me Lembro de não ter vontade de recolher os pedaços e recompor o pote, pelo contrário, a vontade foi novamente de fugir, que, nesse caso, seria escolher o caminho mais fácil: recolher os pedaços e jogar no lixo. Desistir de tudo. No entanto, não desisti. Consegui reconstituir uma parte do meu pequeno pote e isso foi suficiente para me fazer feliz… Por um tempo.  Esse breve momento de alegria me fez esquecer do que ainda faltava ser reconstruído e querer viver apenas com o que já estava feito. Mas não era suficiente. Logo me dei conta disso e novamente recorri à velha solução: fugir. Só que, dessa vez, o fugir não seria jogar fora, mas sim acomodar, ignorar e tentar esquecer. Mas não deu certo.

Não se pode viver com apenas um pedaço, pois nunca será verdadeiramente suficiente e uma hora ou outra você terá momentos como esses em que percebe isso. Mas a diferença é feita quando a resposta a esse pensamento muda. Quando, em vez de fugir, te der vontade de lutar, de completar e se sentir completa. E, para isso, é preciso coragem e força. Se bem feito, será como nunca tivesse sido quebrado. Mas, felizmente, nunca será perfeito. Você sempre verá as marcas, e isso é o melhor porque te fará lembrar as três coisas mais importantes: Você já foi quebrado antes, poderá ser novamente e, mais importante, você já teve a força que precisou para se completar e essa estará sempre com você!

Metamorfose

metamorfose

Ele parece esconder o sol e a lua dentro de si.

Como se pudesse ser duas pessoas em uma só.

Às vezes, é o cara mais carinhoso que eu já conheci. Brincalhão, gentil, amável.

Nesses instantes, lembro de momentos que ainda não vivemos, mas que ainda assim, estão guardados dentro do meu peito, esperando para serem compartilhados contigo.

Lembro do cheiro do teu perfume, do cheiro do teu corpo quando fica suado, lembro dos teus olhos refletindo os meus.

Em todas essas lembranças, você é o meu guia, a luz que alumia meus passos na escuridão.

Então, a noite chega, silenciosa e repentinamente.

E eu percebo que apesar de bela, a lua não me é suficiente.

Porque a lua é fria e sombria, e isso me assusta.

Então, corro para debaixo das cobertas e pretendo fingir que não conheço esse lado teu.

Pois, me vejo diante de um cara cujo coração parece ter sido substituído por uma pedra. E as delicadas mãos, por punhos de ferro.

A sombra friorenta da lua deforma teu rosto.

Mas, principalmente, tua alma.

Choro em agonia.

E com um desesperado beijo tento te trazer de volta para mim.

Fazendo tua alma lembrar o poder do amor.

É quando você, soluçando, cai nos meus braços, e gentilmente retribui o meu beijo.

E a metamorfose definitivamente acaba.

Te devolvendo por inteiro pra mim.

– Edmilson Rodrigues é aspirante a escritor e jornalista. Chocólatra, cinéfilo, adora viajar e conhecer pessoas. Cheio de sonhos, vive transitando entre os mundos fantásticos dos livros que lê. 

Fragmentos de um personagem perdido

Gaveta de Letras

Eu vivo minha vida como a obra de um beijo. E digo sempre que posso “Esse não sou eu”. No limite de uma satisfação passageira, sendo livre, preso numa gaiola. Tento correr nos meus círculos, mas sempre acabo invadindo a bolha dos outros. Dá pra correr pelas estrelas, escorregar pelas veias escuras de um sonho perdido, descobrir imerso numa escuridão egoísta, o mais profundo coração rebelde. Dá pra olhar pelo passado e dizer “É, esse sou eu.” correndo por dentro das mais profundas correntezas. Amor pesado, te puxando pro fundo, onde se guarda a mais bela obra de arte.

– Emidio Freitas; Não há nada que eu queira falar sobre mim. Mas o que precisam saber é que tenho olhos puxados, dedos ágeis e um coração com chifres e espinho, como um touro com uma coroa de flores.”

Do Lado da Frente

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Ilustração: Júlia de Belli

“O dedo que aponta aponta pra a puta.

A puta que sente,

que sente e que ama.

A puta demente tão cedo se assanha.

Se esquece que ganha,

se esquece que mente.

Ela vê o dedo,

o dedo que aponta.

E se desaponta,

mas não se arrepende.”

– Me chamo Pamela Sousa e tenho 19 anos. Sou natural da cidade de Escada, e vim parar em Recife por conta dos estudos. Me apaixonei pela cidade e pelas pessoas, e acho que não saio mais daqui não.  Há dois anos faço geologia na UFPE. Escrevo sempre que dá vontade ou quando preciso, é uma terapia, eu organizo muito meus pensamentos enquanto escrevo.

Conheça mais do trabalho de Pâmela em seu blog:

http://palavrasobsoletas.blogspot.com.br/

Janeiros em Marços

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E eu continuo aqui.

Neste mesmo assento roxo, ouvindo as mesmas músicas, tentando tirar da cabeça um certo alguém. É que às vezes a vontade de ficar é mais forte do que a coragem de sair.

Pois bem, cheguei a uma conclusão – e espero eu que a mesma seja definitiva: eu sairei da trança, não como tentativa de fugir, mas de expandir em direção a outros horizontes. Dar lugar a outras pessoas.

Quem sabe eu encontre alguém… Não sou tão cabeça-dura a ponto de ignorar meus sentimentos e virar as costas para a realidade. E este é um momento definitivo: é um ponto final.

Há dois anos, meus Janeiros e Fevereiros, mais do que os outros meses, têm sido meses solitários e ruins. Mas hoje, em Março, eu mudo isso. Me prometo mudar.

Não me tornarei uma revolucionária ou louca, mas tentarei encontrar em mim a pessoa que busco ser. Afinal de contas, o segredo é aquele do livro O Pequeno Príncipe: “só se vê bem com o coração”. E é assim que pretendo ver. Viver. Ser.

E assim, eu sei, jamais terei Janeiros e Fevereiros como os que tenho novamente. E se os tiver, saberei superar. Por que a maturidade é uma qualidade (ou um defeito) que só se adquire ao, seja lá o que for, vivenciar.

Agora é hora de me despedir. Uma nova vida me espera.

Não serei nostálgica ou pessimista fazendo votos de encontro no futuro; nem enganadora, dizendo que quero felicidade ou tristeza; ou mesmo individualista, pensando somente em mim: neste momento, eu quero produtividade.

E, então, um “adeus” aos velhos tempos.

– Raquel; Uma garota com foco difuso, espalhado por todas as coisas nesse grande mundo. Apaixonada pela arte, e motivada pela escrita. Espontânea, vibrante e louca pelas coisinhas simples da vida.