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Revista literária - Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

Azul cor de rosa

azul cor de rosaCéu cor de menino
Findando amarelo alvino
Próximo ao sol e horizonte
Tão longes, onde,
mas de onde?

Horizonte amarelo
De nada é perto,
Longínquo ate de si mesmo
Onde caem os barcos
E nunca mais são achados

Céu azul clarinho
É o limite
O mar que segura
Tudo que está na terra
Ate terra

Rema rema, mas não cai!
Cuidado santos Dumont(e)
Indago o que mais me impressiona
Se é o homem navegar no céu mar
Ou não cair no seu horizonte.
[…]

Lucas Carvalho – Sou o Lucas, já tentei dar-me alguns pseudônimos (Como João Pedro, Outrossilva), mas nenhum foi definitivo, então sou o Lucas. Carvalho de preferência. Silva é bastante genérico.

Versos da Alma

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Meus dedos são como lápis

Que vão escrevendo versos

No papel do teu corpo.

E nesse corpo,

As vezes,

Me encontro com marcas

E cicatrizes de poemas antigos

Que foram apagados com o tempo.

As vezes bebo-te

Em goles de raiva,

Misturado com perdição.

E trago todo o egoísmo

Que tem em ti,

Com cigarros baratos

Ascendidos na chama da tua timidez.

E em meio a toda essa confusão

Que é você;

Vejo tua boca,

Lépida e sádica,

Destilando sorrisos

Empoçados de venenos.

E acho teus olhos,

Quietos e calados,

Tentando disfarçar

Aquilo que você tem por dentro;

E que agora

Está fora de seu controle.

Bem, quem sou é uma questão que me tortura há tempos. Só posso dizer que sou estudante de História e nas horas vagas escrevo e vivo. Tenho 19 anos e pretendo ser professor. Simpatizo com poetas sacanas e marginais, pois gosto das palavras que saem da raiva, dor, ódio, angustia, ócio e sofrimento. Pra mim, são os melhores poemas.

Há flores nas rachaduras

há flores nas rachaduras

Talvez a tal chama infinita da esperança seja uma mera forma de os covardes dizerem que não desistiram. Como se desistir fosse covardia e não coragem. Admitir que ainda tem esperança e não lutar a favor de sua causa é desde quando um ato de coragem?
Conrado acreditava que desistir era o meio mais concreto de ser corajoso. Porque abrir mão, abandonar e esquecer, todo mundo faz. Mas desistir é uma possibilidade que só existe para aqueles que lutam.
Conrado hoje tem em sua pele vinte e cinco anos. Seus olhos castanhos não conseguem esconder as suas dores e o cansaço de não desistir de quem se é. Sua boca, que tantas vezes em contato com a minha brincou de sorrir, hoje acompanha silenciosamente os gritos do menino que é homem, os gritos que ninguém nunca entendeu por nunca terem sido expostos.
Conrado só tinha a mim, depois de sua mãe. O amor que eles nutriam um pelo outro era o suficiente para que Conrado nunca permitisse ser o motivo das lagrimas dela. No dia que viu sua mãe chorar jurou a promessa que cumpre até hoje: dedicara ao máximo a não permitir que sua dor machucasse outra pessoa novamente. Nada no mundo teria força o suficiente para fazê-lo machucar quem ama.
Ele lia e isso me fascinava. Cruzei com ele vezes o suficiente dentro de livrarias para saber que tinha a leitura como seu refúgio mais seguro. A sua realidade nunca o agradara e roubar a dos outros era o melhor que sabia fazer. Conrado sabia que cada história que passava por suas mãos o tornava pertencente de uma vida diferente e possivelmente melhor do que a que ele possuia mas quando se tratava de sua mãe Conrado sabia que o mundo em que ela vivia era tão fantasioso quanto os que ele costumava visitar em suas leituras, pois, cada dia no calendário era um dia a menos, mas, ela dizia ainda ter força para fugir do que lhe estava destinado.
Contudo, ele não podia alimentar-se só de histórias, trabalhava. Sem emoção alguma. Trabalhava com o que lhe parecia talvez a melhor coisa do mundo treze anos atrás. Era o suficiente para cuidar de sua mãe e comprar seu passaporte para o mundo que o agredia, mas não iludia.
Conrado viveu assim até o dia que o mundo o fez lembrar que ninguém se isenta da sina que é viver, ninguém burla as leis que estar vivo nos impõe.
Tinha apenas meu número na carteira, junto dos cem reais para emergências, e eu sabia que nunca se desfaria da única possibilidade de contato entre nós. Conrado me ligou depois de três anos, depois de três infinitos anos sem ouvir sua voz chamar diretamente por mim. “Eu preciso de você”. Foi a única coisa que ele conseguiu falar depois de ter certeza que a voz do outro lado era a minha, e é claro, eu estava lá para ele. Sabia onde o achar, sabia que um dia sua realidade inerte seria abraçada pela dinamicidade do mundo que tanto temia, e eu estaria lá.
Conrado foi a única pessoa que invadiu meus muros. Ele não pediu pra entrar. Nunca me disse “oi” ou perguntou se podia sentar do meu lado. Nunca fez nada do tipo de coisa que qualquer pessoa normal faria quando acha que pode construir algo com outra. Nós nos esbarramos, colidimos e nos invadimos. Como uma barreira que desmorona e invade as casas, destruindo tudo de sólido e abrindo brechas obrigatórias para a continuação da vida, abrindo rachaduras onde nem paredes existem, fazendo queimar a esperança e a fé que muitos dizem ter como combustível para viver.
Ouvi em algum lugar que em tudo há rachaduras e é através delas que a luz acaba entrando. Conrado demoliu minha casa, mas abri uma rachadura nele e a luz, nesse caso, chama-se esperança. Por muito tempo achei que falhei, mas ele, sem perceber, me provou que não.
Conrado se dividiu comigo por quatro anos, até o dia em que ele me disse não aguentar mais lutar contra si mesmo. Seus demônios talvez fossem maiores do que eu pensava. Ele não queria mais me ver, não achava justo que eu gastasse meu tempo com alguém que não tinha nada a me oferecer, além de suas próprias frustrações. E negou me amar dizendo que não se ama outro quando não ama nem a si mesmo. Lamentei profundamente ver que ele mentia, e sabia disso.
Sexta-feira, 16h, varanda do Paço Alfandega. Ele estava lá, eu também.
Não era novidade que Conrado não havia mudado tanto. Além de alto e magro, o bege de sua pele continuava calmo. O peso de seus olhos mantinham toneladas sob seu ombro que erguia com um certo esforço. Seus cabelos tinham a forma de sempre, no entanto andavam desgrenhados como se o único consolo para seus fios fossem o afago que encontravam em meus dedos.
Mas, para ele, eu era novidade, era como se não esperasse nada além de desprezo por ter me negado sua permanência. Eu continuava a mesma. Talvez com três anos tristes e saudosos nos ombros, mas eu era a mesma Júlia a quem ele amava.
Seus olhos castanhos e famintos percorreram cada centímetro do meu corpo, as curvas que o vento desenhava no meu vestido faziam nossos cheiros se misturarem, e sentir seus olhos em mim daquela forma depois de tanto tempo era a maior prova de que ele não só me amava como ainda me ama. Acima de tudo, Conrado tinha para consigo o amor que guardava para mim.
Senti seus braços em minha volta por segundos que me fizeram pensar que ele encontrava em mim a segurança que o mundo nunca havia lhe proporcionado.
Conversamos até o anoitecer. Conrado me disse, entre outras coisas, que o estado de sua mãe havia se agravado. O câncer em seu pulmão havia se alastrado pelo seu corpo, e cada hora que se passa é a hora mais próxima de sua morte.
Percebi então que minha presença ao seu lado era tudo o que ele precisava e poderia ter, pois todos os amigos que tinha estavam presos nas páginas que tanto amava e que, naquele momento, faziam-se inúteis.
Por fim, nos despedimos, e, apesar de termos tratado de um assunto delicado, conseguimos sorrir um pouco. Sorrimos simplesmente por estarmos juntos. As coisas subtamente se tornavam leves.
Dias depois, Conrado bateu em minha porta. Seus olhos estavam mais nublados do que nunca e eu estava disposta a permanecer ao seu lado durante toda a tempestade. No dia seguinte, nos encontramos no enterro. Cada flor, abandonada nos túmulos que compunham o nosso caminho, choravam junto comigo a dor de não ter estado ao lado dele.
Por mais lamentável que seja o modo como retornamos um para o outro, compreendíamos que nossos laços nunca deveriam ter sido desatados e nossos nós permaneciam.
A morte de sua mãe o levaria a loucura caso Conrado não tivesse me encontrado. A esperança que residia em seu peito bordava meu nome nas linhas de sua vida.

-Giselle Cahú: Meus muros são detentores de minhas cores e todas as cores convergem ao azul. Rabiscar versos e frases são maneiras fluidas de fixar tudo o que habita em mim, mesmo que me falte. Cahú em Tupi é rio que corta a mata. Gosto de pensar nesse como o único significado. Os traços nos papéis são as correntes que conduzem a mim.

-Caroline Falcão: A melhor definição que encontrei sobre mim se resume em duas palavras; som e silêncio. Nasci surda, vivo no meu silêncio, porém, prefiro enlouquecer nesse mundo barulhento. O som me fascina, o silêncio me agride, o som me encanta, mas o silêncio insiste em morar em mim. Sou mais o canto dos pássaros do que a voz que insiste em permanecer nos meus pensamentos.

Asa branca

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No meu corpo as tuas cinzas

Debaixo dos braços o branco

Branca é a terra

Árida enlaçada em sertão

Branca é a minha asa

que plana para o sul verde

Para trás fica a minha terra

e meus filhos que diminuem…

Branca é a minha esperança

nessas novas veredas

Mas quero acolher a seca em mim

Pois as águas do meu coração são muitas

Há cura, ainda há valor.

“Hoje eu sou uma senhora, velha como o que aprendi.
Hoje eu sou uma senhora, velha como o molde de onde tento sair.
Letícia, aspirante a jornalista, amante de cinema, leitora indisciplinada e imersa na constante tentativa de demonstrar pelos meus versos as minhas verdades mutáveis.”

A Mulher Recife

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Ilustração por Julia de Belli

Ah, Recife… Como uma mulher estuprada, a culpa é sua. A culpa é sua porquê você quis lutar contra os grandes homens. E nessa cidade é errado lutar contra grandes homens.

Ah, Recife… Como numa cena de estupro, ninguém pode te proteger. Ninguém pode te proteger porquê será agredido também.

Ah, Recife… Se todos pudessem te ouvir e te amar. Mas você é uma cidade estuprada, uma cidade que não tem voz e que pra muitos merece a condição.

Ah, Recife… Mas você é uma cidade que tem povo e quem tem povo, TEM VIDA.

Ah, Recife… Enquanto houver povo, haverá luta e não haverá preço que te compre.

-TF é uma pessoa espontânea e divertida, mas que precisa “caotizar” de vez em quando…  São em momentos assim que nascem textos como esse.

Desafio das Fechaduras

Essa seção do Gaveta procura, como não poderia deixar de ser, trabalhar diretamente com literatura, mas, dessa vez, feita dentro da equipe do projeto. Uma história é lançada e, periodicamente, novas partes dela serão publicadas. Funciona assim: depois de publicada, a história terá seu desenrolar nas mãos do público. No final de cada capítulo, haverá três possibilidades de continuação e os leitores votarão naquela que preferir. Ou seja, tudo o que acontecer na história – desde ser levada a algo que não faça muito sentido até à morte de um personagem – será de responsabilidade daqueles que votaram para que tal coisa acontecesse.  Desse modo, o Gaveta dá a oportunidade de aqueles que nos acompanham construírem um enredo junto conosco. As votações poderão ser realizadas logo após a leitura do capítulo atualizado, aqui mesmo no site.
Quem ficará responsável pela escrita dos capítulos escolhidos por meio de votação é Maria Anna Leal Martins. Ela é editora do projeto e já teve alguns de seus textos publicados no Jornal de Gaveta.

Quer conhecer esse desafio? Então acesse.

Foto: Marlon Diego Edição: Matheus Fábio
Foto: Marlon Diego
Edição: Matheus Fábio

Ainda não é hora do aDeus

Em 11 de agosto de 2015

Na noite de quinta-feira (6), no bar Teatro do Mamulengo, Miró da Muribeca, o poeta-cronista (como ele mesmo se denomina), lançou seu novo livro. No mesmo dia em que completou 55 anos de vida, o aDeus de Miró chegou não para se despedir, mas para confirmar que ele ainda terá muitos momentos para poetizar.

De cara, o título traz um duplo sentido muito interessante e digno do poeta versátil e ágil que ele é. Numa conversa com o Gaveta, explicou que essa ambiguidade é proposital. Apesar do título já existir antes mesmo de ser internado no hospital, mês passado, o nome traduz sentimentos que vieram durante a estadia forçada e logo depois que o poeta recebeu alta. Inicialmente o questionamento “Há Deus?” poderia ser o título da obra e também teria a ver com a morte da mãe, um momento difícil para a vida de Miró. Mas, depois de ter sido internado por causa de complicações vindas principalmente pelo consumo de álcool, o título traz outra interpretação: Adeus. “Agora é o adeus ao álcool [..] ao Miró que eu não quero mais”, declara o poeta. Por fim, quem resolveu que seria aDeus foi Wellington de Melo, editor do Mariposa Cartonera, responsável pela publicação do livro, fazendo referência às duas interpretações e causando um duplo sentido bastante propício.

São 33 poemas. “A idade de Cristo”, Miró fala da coincidência. Eles foram selecionados por Wellington de Melo, editor do Mariposa Cartonera, responsável pela publicação do livro. “Havia um conjunto de poemas que haviam sido selecionados por Karla Melo, da Confraria do Vento. Algo em torno de cento e cinquenta poemas que envolveriam um projeto que acabou não indo adiante. Miró me deu o ar​quivo e disse que eu teria liberdade para escolher. Fiz uma seleção pensando nesse momento dele e mostrei. Tiramos um poema e colocamos outros, chegando ao número de trinta e três textos”, conta Wellington.

Apesar do recém-lançamento, já há em vista outro trabalho a ser divulgado. “Já estamos fazendo uma nova edição do livro e ele tem a ideia de reunir outros poemas e fazer outro livro. Vamos conversando sobre isso. O importante agora é a recuperação dele e manter a saúde e a energia”.

Todas as 150 unidades autografadas e enumeradas do livro já foram vendidas, mas ainda é possível adquiri-lo numa segunda remessa que chegará em cerca de 15 dias. Os livros podem ser comprados pelo site da Mariposa Cartonera. Em breve, serão indicados pontos de venda.

Foto: Priscila Buhr
Foto: Priscila Buhr

Eu e o meu desejo

Eu quero. Eu desejo.
O meu querer e o meu desejo me movem e me tolhem ao mesmo tempo:
continuidades e rupturas.
Eu quero como eu quero.

E não quero quando o que quero não é como o meu querer; como eu quero.
Quero querer querendo o que quero…
Quero não querer o que quero… Quero?
Quero querer saber se o que eu quero, eu quero. Quero!

Fonte inesgotável do querer, o meu desejo me alimenta pelos sentidos: mãos, olhos, ouvidos, nariz, boca.
O teu ou o meu desejo de querer me invadem? Me ofendem? Me vilipendiam?
Que frio, que escuro, que nada… o simples e inevitável desejo de querer…
Quero sonho, quero vida, quero cor, quero pulsação, quero gozo, quero dor.

Não importa o que seja, QUERO!
Tua mão suja me/se move de dentro de mim, revira-me e tira o que nem existe em mim…
Quero ser tu! Queres ser eu?
Nego-te! Anula-me?

E no fim, nem eu; nem tu; nem sonho; nem vida; nem morte; nem principio, meio, fim; nem nada…
Só resta a doce ilusão de que sendo… torna-se, o ambíguo presente de que fomos e seremos…
Só resta o ar, a lágrima, a ausência e o meu querer de ser, não sendo, pois o meu desejo me matou.

 – Tiago Geraldo, Barreirense, graduando de pedagogia pela Fajolca e de Jornalismo pela UFPE, psicanalista didata em formação.

Alomorfia das palavras – Antítese

Bestas.

Tudo o que queremos, tanto queremos

Em cima das mesas.

Flores, cores vivas e amores.

Sem dores. Oh, sem elas.

Nunca estamos prontos para as dores.

Mas sempre queremos ores no final,

No final da palavra amor.

Antítese? Antítese.

Antítese não termina com ores.

Que seja.

Mas qual das suas frases

Não nos trará rancores?

Mágoas, vão às águas

Escorrem feito as mesmas.

Decorrentes das dores

Que surgiram com amores.

As mágoas são as antíteses.

As quais não sabemos explicar,

Só sentir.

– Raquel; Uma garota com foco difuso, espalhado por todas as coisas nesse grande mundo. Apaixonada pela arte, a escrita é o que me motiva. É uma das coisas que me mantém viva. Espontânea, vibrante e louca pelas coisinhas simples da vida. Sou complexa. Sou amante, sou isso mesmo. Eu.

Direção: Matheus Fábio, Juliana Almeida, Ana Roberta e Pedro Júnior

Atores: Allan Avelyn e Gustavo Ramos

Poesia recitada por: Allana Evelyn e Richard Fernandes

Edição: Matheus Fábio

Agradecimentos: Fernanda Capibaribe.