Monthly Archives: Outubro 2015

Versos da Alma

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Meus dedos são como lápis

Que vão escrevendo versos

No papel do teu corpo.

E nesse corpo,

As vezes,

Me encontro com marcas

E cicatrizes de poemas antigos

Que foram apagados com o tempo.

As vezes bebo-te

Em goles de raiva,

Misturado com perdição.

E trago todo o egoísmo

Que tem em ti,

Com cigarros baratos

Ascendidos na chama da tua timidez.

E em meio a toda essa confusão

Que é você;

Vejo tua boca,

Lépida e sádica,

Destilando sorrisos

Empoçados de venenos.

E acho teus olhos,

Quietos e calados,

Tentando disfarçar

Aquilo que você tem por dentro;

E que agora

Está fora de seu controle.

Bem, quem sou é uma questão que me tortura há tempos. Só posso dizer que sou estudante de História e nas horas vagas escrevo e vivo. Tenho 19 anos e pretendo ser professor. Simpatizo com poetas sacanas e marginais, pois gosto das palavras que saem da raiva, dor, ódio, angustia, ócio e sofrimento. Pra mim, são os melhores poemas.

Há flores nas rachaduras

há flores nas rachaduras

Talvez a tal chama infinita da esperança seja uma mera forma de os covardes dizerem que não desistiram. Como se desistir fosse covardia e não coragem. Admitir que ainda tem esperança e não lutar a favor de sua causa é desde quando um ato de coragem?
Conrado acreditava que desistir era o meio mais concreto de ser corajoso. Porque abrir mão, abandonar e esquecer, todo mundo faz. Mas desistir é uma possibilidade que só existe para aqueles que lutam.
Conrado hoje tem em sua pele vinte e cinco anos. Seus olhos castanhos não conseguem esconder as suas dores e o cansaço de não desistir de quem se é. Sua boca, que tantas vezes em contato com a minha brincou de sorrir, hoje acompanha silenciosamente os gritos do menino que é homem, os gritos que ninguém nunca entendeu por nunca terem sido expostos.
Conrado só tinha a mim, depois de sua mãe. O amor que eles nutriam um pelo outro era o suficiente para que Conrado nunca permitisse ser o motivo das lagrimas dela. No dia que viu sua mãe chorar jurou a promessa que cumpre até hoje: dedicara ao máximo a não permitir que sua dor machucasse outra pessoa novamente. Nada no mundo teria força o suficiente para fazê-lo machucar quem ama.
Ele lia e isso me fascinava. Cruzei com ele vezes o suficiente dentro de livrarias para saber que tinha a leitura como seu refúgio mais seguro. A sua realidade nunca o agradara e roubar a dos outros era o melhor que sabia fazer. Conrado sabia que cada história que passava por suas mãos o tornava pertencente de uma vida diferente e possivelmente melhor do que a que ele possuia mas quando se tratava de sua mãe Conrado sabia que o mundo em que ela vivia era tão fantasioso quanto os que ele costumava visitar em suas leituras, pois, cada dia no calendário era um dia a menos, mas, ela dizia ainda ter força para fugir do que lhe estava destinado.
Contudo, ele não podia alimentar-se só de histórias, trabalhava. Sem emoção alguma. Trabalhava com o que lhe parecia talvez a melhor coisa do mundo treze anos atrás. Era o suficiente para cuidar de sua mãe e comprar seu passaporte para o mundo que o agredia, mas não iludia.
Conrado viveu assim até o dia que o mundo o fez lembrar que ninguém se isenta da sina que é viver, ninguém burla as leis que estar vivo nos impõe.
Tinha apenas meu número na carteira, junto dos cem reais para emergências, e eu sabia que nunca se desfaria da única possibilidade de contato entre nós. Conrado me ligou depois de três anos, depois de três infinitos anos sem ouvir sua voz chamar diretamente por mim. “Eu preciso de você”. Foi a única coisa que ele conseguiu falar depois de ter certeza que a voz do outro lado era a minha, e é claro, eu estava lá para ele. Sabia onde o achar, sabia que um dia sua realidade inerte seria abraçada pela dinamicidade do mundo que tanto temia, e eu estaria lá.
Conrado foi a única pessoa que invadiu meus muros. Ele não pediu pra entrar. Nunca me disse “oi” ou perguntou se podia sentar do meu lado. Nunca fez nada do tipo de coisa que qualquer pessoa normal faria quando acha que pode construir algo com outra. Nós nos esbarramos, colidimos e nos invadimos. Como uma barreira que desmorona e invade as casas, destruindo tudo de sólido e abrindo brechas obrigatórias para a continuação da vida, abrindo rachaduras onde nem paredes existem, fazendo queimar a esperança e a fé que muitos dizem ter como combustível para viver.
Ouvi em algum lugar que em tudo há rachaduras e é através delas que a luz acaba entrando. Conrado demoliu minha casa, mas abri uma rachadura nele e a luz, nesse caso, chama-se esperança. Por muito tempo achei que falhei, mas ele, sem perceber, me provou que não.
Conrado se dividiu comigo por quatro anos, até o dia em que ele me disse não aguentar mais lutar contra si mesmo. Seus demônios talvez fossem maiores do que eu pensava. Ele não queria mais me ver, não achava justo que eu gastasse meu tempo com alguém que não tinha nada a me oferecer, além de suas próprias frustrações. E negou me amar dizendo que não se ama outro quando não ama nem a si mesmo. Lamentei profundamente ver que ele mentia, e sabia disso.
Sexta-feira, 16h, varanda do Paço Alfandega. Ele estava lá, eu também.
Não era novidade que Conrado não havia mudado tanto. Além de alto e magro, o bege de sua pele continuava calmo. O peso de seus olhos mantinham toneladas sob seu ombro que erguia com um certo esforço. Seus cabelos tinham a forma de sempre, no entanto andavam desgrenhados como se o único consolo para seus fios fossem o afago que encontravam em meus dedos.
Mas, para ele, eu era novidade, era como se não esperasse nada além de desprezo por ter me negado sua permanência. Eu continuava a mesma. Talvez com três anos tristes e saudosos nos ombros, mas eu era a mesma Júlia a quem ele amava.
Seus olhos castanhos e famintos percorreram cada centímetro do meu corpo, as curvas que o vento desenhava no meu vestido faziam nossos cheiros se misturarem, e sentir seus olhos em mim daquela forma depois de tanto tempo era a maior prova de que ele não só me amava como ainda me ama. Acima de tudo, Conrado tinha para consigo o amor que guardava para mim.
Senti seus braços em minha volta por segundos que me fizeram pensar que ele encontrava em mim a segurança que o mundo nunca havia lhe proporcionado.
Conversamos até o anoitecer. Conrado me disse, entre outras coisas, que o estado de sua mãe havia se agravado. O câncer em seu pulmão havia se alastrado pelo seu corpo, e cada hora que se passa é a hora mais próxima de sua morte.
Percebi então que minha presença ao seu lado era tudo o que ele precisava e poderia ter, pois todos os amigos que tinha estavam presos nas páginas que tanto amava e que, naquele momento, faziam-se inúteis.
Por fim, nos despedimos, e, apesar de termos tratado de um assunto delicado, conseguimos sorrir um pouco. Sorrimos simplesmente por estarmos juntos. As coisas subtamente se tornavam leves.
Dias depois, Conrado bateu em minha porta. Seus olhos estavam mais nublados do que nunca e eu estava disposta a permanecer ao seu lado durante toda a tempestade. No dia seguinte, nos encontramos no enterro. Cada flor, abandonada nos túmulos que compunham o nosso caminho, choravam junto comigo a dor de não ter estado ao lado dele.
Por mais lamentável que seja o modo como retornamos um para o outro, compreendíamos que nossos laços nunca deveriam ter sido desatados e nossos nós permaneciam.
A morte de sua mãe o levaria a loucura caso Conrado não tivesse me encontrado. A esperança que residia em seu peito bordava meu nome nas linhas de sua vida.

-Giselle Cahú: Meus muros são detentores de minhas cores e todas as cores convergem ao azul. Rabiscar versos e frases são maneiras fluidas de fixar tudo o que habita em mim, mesmo que me falte. Cahú em Tupi é rio que corta a mata. Gosto de pensar nesse como o único significado. Os traços nos papéis são as correntes que conduzem a mim.

-Caroline Falcão: A melhor definição que encontrei sobre mim se resume em duas palavras; som e silêncio. Nasci surda, vivo no meu silêncio, porém, prefiro enlouquecer nesse mundo barulhento. O som me fascina, o silêncio me agride, o som me encanta, mas o silêncio insiste em morar em mim. Sou mais o canto dos pássaros do que a voz que insiste em permanecer nos meus pensamentos.