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O dia que amanheceu sem você

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Hoje o dia amanheceu cinza. Estava mais escuro que teus cabelos, mais calmo que tua alma e mais lento que seu ódio. Ele amanheceu, mas eu não dei nenhum sinal de ânimo. Ele amanheceu e eu não senti seus ventos.

Olhei para a janela, havia uma luz que atravessava o quarto em forma de ondas que dançavam de acordo com a cortina. Então fiquei olhando para o fundo do nada, tentando achar motivo para levantar e enfrentar os monstros do cotidiano. Não achei. Deitei e olhei para o teto. Parecia se mover em moinhos, dava pra sentir os detalhes se comunicando entre si, tentando me dizer algo… Mas não conseguia entender.

Do meu quarto dava para ouvir tudo o que se passava pela rua. Os motores dos carros, o passo apressado das pessoas em direção ao trabalho, a mãe gritando com o filho, as declarações de amor, as de ódio, o cantar de desespero do pássaro engaiolado. Quase tudo. Então ouço batidas arrítmicas na porta pulsando raiva. Quando abro, vejo a loucura a minha frente, peço para entrar. Puxo duas cadeiras e sentamos frente a frente se encarando. Acendo um cigarro e começo a fumar; ela não fala nada, não se expressa de forma alguma, mas consigo entender seu joguinho barato de cinismo e covardia. De tragos em tragos, ela se levanta, me olha e fala com um assovio tímido e ínfimo que hoje é um belo dia pra não morrer. Quem sou eu para contrariar a loucura? É melhor ficar no meu quarto.

Anoiteceu e eu não saíra de casa neste dia. Por acaso do destino, o céu estava limpo, tinha estrelas e a lua estava no seu ápice. Achei um telescópio no quarto do meu irmão. Montei-o, e mirei sem direção alguma; estava apenas querendo olhar o mais longe que pudesse. Vi uma janela, vi seu quarto, vi você olhando a lua enquanto seu cabelo dançava com o vento; vi sua boca falando coisas que não consigo interpreta, e vi que meu sossego estava precisando da tua bagunça sentimental. Senti que não te conhecia mais, senti que nossa sintonia estava bagunçada; que nossos corpos se estranham, que nossos olhos jamais se namoraram. Então voltei pra cama e deitei a espera de mais um monótono cotidiano que virá. E a ampulheta da vida se carregará da areia cósmica sentimental que é o amor de novo, e de novo, e de novo, até morrermos.

Bem, quem sou é uma questão que me tortura há tempos. Só posso dizer que sou estudante de História e nas horas vagas escrevo e vivo. Tenho 19 anos e pretendo ser professor. Simpatizo com poetas sacanas e marginais, pois gosto das palavras que saem da raiva, dor, ódio, angustia, ócio e sofrimento. Pra mim, são os melhores poemas.