Monthly Archives: Dezembro 2014

Menina

MENINA

“Menina estranha.

Possuía olhos puxados e perdidos, uns cabelos leves e pele suave. Talvez esse seja o porquê de sua cabeça estar eternamente entre as nuvens: nem mesmo o cabelo rubro lhe pesava. Tinha todo e qualquer motivo do mundo para ser feliz e, mesmo assim, agarrava com força a falta de felicidade que consumia lentamente suas entranhas. Sussurrava gritos e berrava baixinho sua tristeza do modo mais doce que alguém podia fazer.

Menina burra.

Causava em mim uma profunda inspiração que me transcendia e me fazia querer escrever até que os meus dedos exigissem descanso. Tinha um olhar esquisito, me lembrava Capitu e Lispector… talvez seria ligeira evolução das duas, porque nem escrevia nem seduzia moços, entretanto perturbava pessoas. Carregava sempre consigo um livro de poesias românticas debaixo do braço e insistia em sussurrar ora ou outra versos desconcentrantes com sua voz embriagada da tequila mais vagabunda.

Menina perdida.

“Tens amor, eu — medo”, suspirou cansada no meu ouvido dia desses. Casimiro não, minha menina, não… , respondi contra a pele do ombro desnudo. Vinha a me oferecer a droga mais destrutiva, e quisera eu ser uma erva, pior, era o seu beijo. Tinha um gosto ácido e ao mesmo tempo doce que me trazia de volta a minha melhor memória da juventude. Sua língua cálida estava me viciando desde o primeiro deslize na minha. “Oh, menina, por que fizeste isso? Agora não tem mais volta, o meu amor é todo teu.”, ela gargalhara na minha cara depois de, aturdido com sua saliva, confessar isso com o meu pior tom apaixonado.

Menina sem alma.

Convidara-me outro dia para dançar bolero e, quando estava chegando ao passo mais complicado, pediu um gole de vinho e fora se deitar. Abaixo do seio esquerdo marcara um aviso de que as-pessoas-sempre-vão-embora para não mais ceder sua confiança ao desconhecido, e ainda tentou escondê-la de mim noite passada. Preferia continuar sussurrando sacanagens contra minha boca a entregar seu coração de vez. Parecia o mais seguro a se fazer se quisesse continuar dormindo comigo. Eu a assustava tanto? Era ela quem me metia medo, não eu a meter medo nela. Doce desencontro da vida.

Menina assustada.

Estava prestes a me confessar as três palavras mais perigosas do mundo, quando, de repente, pôs-se a chorar e parar a noite mais gostosa de minha vida. Reuniu uma muda de roupas e saiu pela porta da frente, ignorando quaisquer pedidos que eu lhe fizesse para ficar, gritando a plenos pulmões que não ia deixá-la, que ia permanecer ao seu lado, que ia lhe fazer a mais feliz, que nunca amara alguém tanto daquele jeito.

É esse o problema, meu bem. Tens amor, eu — medo”.

Menina tola.”

-Anna Júlia: quem sabe um dia tu deixes de contemplar o Sol do meu olhar e me perder por aí, no ar, meu bem, poderias reconquistar o meu amor desta forma se acreditasses que és quem eu sempre sonhei.

Separação

 tati - separação - conto

O despertador toca e o marido se vira na cama. O lado esquerdo vazio e os lençóis desarrumados indicam que a esposa já se levantou para o primeiro dia dos dois sem os filhos.

Eu, deitado no tapete, observo quando ele se levanta, ainda tonto pelo sono, e caminha até a cadeira onde deixou as roupas que escolheu na noite anterior.

A esposa ainda está na sala. Está lá desde que acordou. Assim como ele, a mulher não me deu mais de um ou dois minutos de atenção, e ainda assim, com o olhar vago e o toque distante, como se não estivesse em seu corpo.

E ele finalmente se livra do pijama e começa a se vestir. Olha-se no espelho enquanto abotoa a camisa, fitando o cabelo começando a ficar grisalho e as rugas em volta dos olhos. Balança a cabeça para os lados enquanto ataca o cinto, como se perguntasse onde foram parar o vigor e a alegria da juventude.

Saio do quarto e vou até a sala, em busca da mulher. O cômodo enche-se com o mesmo ar pesado do anterior. Ela senta-se à janela, ainda de camisola, com uma caneca esfriando no colo. Também envelheceu, percebo.

E a idade é acentuada pelas olheiras profundas e o nariz vermelho, indicadores da noite de pranto.

O primeiro dos filhos do casal tinha morrido ainda na infância, vítima de uma doença fatal. O segundo fora para o exterior há cerca de dois anos e agora a única filha tinha se casado e ido embora de casa. O casal já fragilizado desde a morte do primogênito, agora se encontrava vazio e insípido.

E então o marido chega na sala, puxando duas malas enormes (que durante tantos anos tinham sido usadas em viagens de família) e sacudindo a chave do carro. O tilintar do chaveiro chama a atenção dela, percebo pela maneira como seu olhar desvia-se do horizonte para o chão do cômodo, mas ela não se vira. Assim como também não olha quando ele pigarreia e tenta falar alguma coisa. A esposa, agora ex, age como se pudesse ignorar a partida.

O marido, silenciosamente, ajoelha-se e faz-me um carinho nas orelhas. Eu o respondo com um ronronar baixo, temeroso por quebrar o silêncio, e o encaro tentando pedir pra que fique. Ele balança a cabeça para os lados novamente me dizendo que não. E como a resposta poderia ser diferente, se naquela casa já não lhe restava nada além da sombra de seu casamento?

Ele sai. Fecha a porta com um “clique” e desaparece. Uma série de soluços irrompe na sala, rasgando a garganta daquela mulher. Chora, mas não se levanta nem leva a caneca aos lábios, apenas continua lá, sentada e encarando o vazio.

E eu, pulo para o sofá e me enrosco, pois sei que naquele dia não há mais nada pra mim além daqueles lamentos.

Não me incomodo. Afinal, o gato nunca recebe mais de um ou dois minutos de atenção…

-Tatiana Araújo: ansiosa, irresponsável e inevitavelmente sociável, Tatiana é aspirante à escritora durante o dia e estudante de alguma coisa nas horas vagas. Não que ela se importe.

Eternal

GGYXNtF


Eu me perdi ao te encontrar
cinco longos segundos
abraço e timidez
aquele cheiro
despenquei
estremeci

sorri
descobri
senti a paz
me subjugando
sem pedir permissão
então flutuei em êxtase

O arisco risco no fino rosto
o olhar inquieto que invade
e aprisiona, cárcere imposto
cela de laços em grade

Paredes onde habito
sou réu e vítima
me deixei e fui levado,
doce cena
seu perfume, a minha algema
sua pele, meu poema

-Mike Torres estuda Jornalismo na UFPE, tem 21 anos, está no sexto período da graduação e tem muitos sonhos, tanto pessoais quanto profissionais. Ama música, fones de ouvido, história, livros, o mundo virtual e poesia. Gostaria de dar um abraço em todo mundo.

Bobos

bobos

Caminho de um lado pro outro meio impaciente enquanto te espero. Olho o visor do celular inúmeras vezes, nenhuma mensagem de texto, chamada, ou qualquer sinal seu. Mãos suadas, cabelo bagunçado, cérebro a mil. Vejo que horas são e percebo que você não está atrasado, mesmo assim olho o relógio outra vez, e mais uma, acho que estou meio paranoico com a sua ausência.

A usual situação da rua nada me acrescenta. Ouço o barulho dos carros transitando, as intermináveis buzinas, o ruído das freadas bruscas dos ônibus, ao mesmo tempo que várias pessoas passam pra lá e pra cá, todas muito ocupadas, atrasadas, apenas pessoas. Então, noto o sinal fechado mais uma vez. É quando vejo você do outro lado da rua.

Aceno tentando não aparentar tão desesperado quanto estava alguns minutos atrás, e você retribui sorridente, me presenteando com aquele sorriso gostoso que só você tem. Consequentemente, sinto minhas pernas bambearem e ordeno que elas se mantenham firmes –  mentalmente é claro.

Você se aproxima e nos abraçamos, um abraço apertado, sincero, então, lentamente, nossos lábios se encontram e se perdem num sentimento intenso e delicado, saciando a saudade. Logo, ouço as batidas disparadas do meu coração e sinto um leve frio na espinha, definitivamente o meu corpo clama pelo teu. Mas a realidade grita o meu nome, me chamando de volta e a razão prevalece a emoção. É nesse momento que procuro ser sensato e contra todos os meus instintos me afasto um pouco de ti.

Então, de mãos dadas, entramos no cinema, em meio aos diversos olhares dos transeuntes no local. Eu, todo bobo, sorriso de orelha a orelha, sentindo-me imensamente feliz. Nesse instante, olho sorrateiramente para o garoto que roubou meu coração enquanto ele compra os ingressos e percebo que seu sorriso também chega aos olhos, é o suficiente para meu estômago revirar, me fazendo sentir um turbilhão de sensações indescritíveis dentro de mim.

Sentamos exatamente no meio do cinema, é o meu lugar favorito. Levantamos o braço da poltrona para ficarmos abraçados juntinhos e conversamos baixinho enquanto o filme não começa. Sinto-me profundamente realizado, gostaria de simplesmente eternizar esse momento, parar o tempo, ou apelar pra qualquer fórmula mágica que me permitisse viver uma eternidade de momentos como este ao seu lado.

Me descubro planejando um futuro pra gente, sorrio ao nos imaginar daqui a 20 anos, ainda apaixonados… Em seguida, o filme começa. Me envolvo ainda mais em seus braços e fecho os olhos visualizando exatamente o momento que estamos vivendo, a trilha sonora do filme é nossa cúmplice, penso que foi escolhida especialmente para nós. Nossos corpos se  procuram, meu olhar encontra o teu, e nesse instante nossos lábios se encontram em ávidos beijos, meu corpo estremece e um intenso calor percorre todo o meu ser, eriça os pelos de meu braço e da minha nuca. É inevitável te querer.

A saudade vai se esvaindo, dando lugar a paixão. São dois corações batendo como um, um sentimento puro e inexplicável compartilhado por duas almas tão diferentes e tão semelhantes, ao mesmo tempo. Somos dois apaixonados, de mãos dadas, no escurinho do cinema, prontos para uma eternidade juntos.

– Edmilson Rodrigues é aspirante a escritor e jornalista. Chocólatra, cinéfilo, adora viajar e conhecer pessoas. Cheio de sonhos, vive transitando entre os mundos fantásticos dos livros que lê. 

Não desformigue o formigueiro

Ilustração de Julia de Belli
Ilustração: Julia de Belli

Quando longe ainda
de tudo o que possa ser ar respirável
a formiga continua seu caminho
questionando-se o questionável.
Operária da causa maior
do rei capital, não está para festa
como está dona cigarra,
mas, sabe se divertir quando pode.
Noutro dia apareceu uma tempestade devastadora
que assolou o formigueiro
e deixou inconsolável dona formiga
que de suas crias não achava o paradeiro.
A tempestade era o rastro do pé
do homem que pisou ali
egoísta, acéfalo, preocupado com o umbigo
não quis nem saber e meteu o pé como um javali.

– Caipirinha do interior paulista, com 20 anos de idade, me chamo Camila e comecei a escrever para dar forma às abstrações que guardo em mente. Grande entusiasta da vida e amante de música tenho procurado meu caminho entre as pedras do mundo.

Antítese

Antítese

Bestas.

Tudo o que queremos, tanto queremos em cima das mesas.

Flores, cores vivas e amores.

Sem dores. Oh, sem elas.

Nunca estamos prontos para as dores. 

Mas sempre queremos ores no final,

No final da palavra amor.

Antítese? Antítese.

Antítese não termina com ores.

Que seja.

Mas qual das suas frases 

Não nos trará rancores?

Mágoas, vão às águas

Escorrem feito as mesmas.

Decorrentes das dores

Que surgiram com amores.

As mágoas são as antíteses.

As quais não sabemos explicar,

Só sentir.

– Raquel; Uma garota com foco difuso, espalhado por todas as coisas nesse grande mundo. Apaixonada pela arte, a escrita é o que me motiva. É uma das coisas que me mantém viva. Espontânea, vibrante e louca pelas coisinhas simples da vida. Sou complexa. Sou amante, sou isso mesmo. Eu.

Jonas

Jonas, por DaSilva

Os meninos remelentos que brincam ora com seus carrinhos de rolimã, ora com suas armas verdadeiramente de brinquedo. As meninas inocentemente violadas, com suas chimbras verdes, azuis, incolores e suas bonecas-filhas ou filhas-bonecas. O tráfico na praça central. Pelos becos, os panos estendidos, enquanto alguém corre para avisar algo a alguém de quem não se pode falar. Ver ou ouvir. Pelas ruas, de tranqüilo só os porcos chafurdando em lama, num calor de 37 graus. Os porcos comem o que um garoto jogou fora e o que o outro garoto deseja comer. As verduras espalhadas no Mercado da Produção. Mas o Brejo Lagoento ainda vibra! Com a música que sai de dentro das casas das lavadeiras semi-analfabetas e das mocinhas ainda em trajes escolares. A música que fala de Vela, de Reza, de Santo, de Sexo. O sagrado e o profano. Misturados em um colorido uniformizado, uniformes das crianças e dos operários.

As pessoas saem de suas casas rumo aos seus trabalhos forçados, por um sistema mais invisível do que elas. O carrego no Mercado, a banca de verduras, o tráfico de drogas. Pressa, amor, raiva, calor, fazem seus corpos suarem, pingarem. Uma sensualidade notável, porém rejeitada. E a pela morena do povo se gruda às suas roupas de pano fino (finíssimo, aliás), confeccionadas por uma costureira do bairro. Bete era a costureira de mão cheia… De calos e cicatrizes. Dos vestidos de noiva às roupas das prostitutas.

Bete criou sozinha seu afilhado Jonas. A vida inteira tentando suprir, entre uma encomenda e outra, a ausência da mãe e do pai que haviam sumido no mundo. Para quê? Não sabia muito bem. Talvez faltasse alguma coisa. A lama, a lagoa, o sururu? Ainda estavam lá, desde a infância do menino. O que seria, então?

Talvez fosse normal abandonar aos doze anos de idade o Lar que de Nosso não tinha nada. Não tinha merenda. Era tempo de só esperar e rezar. Mas o moleque já tinha dezoito anos e a reza não adiantava nada. Bete não chorava. Esperava. Mas as noites em que Jonas estava fora a preocupava. Não era nem a solidão que sentia, pois essa sempre esteve lá, mas lembrava da história do Jonas que havia sido engolido por uma baleia lá na época em que Jesus nem havia nascido. Tinha contado diversas vezes essa história ao seu menino em tempos de bem criança, e ele perguntava: “Será que existiam baleias na lagoa Mundaú?”. E os risos se estendiam durante as noites. Mas nessas noites dos tempos de adulto os risos nem chegavam. Jonas estava ocupado em suas redes… De intrigas, conversas de pe(s)cador.

Jonas tinha perdido muito tempo de sua vida andando cego, guiado por não sei quem. Para quê? Não sabia muito bem. Sempre faltava alguma coisa. Faltava o relógio que nunca poderia ter, a loira gostosa que nunca poderia comer, o restaurante que nunca poderia frequentar. Para ele só ficava o trabalho no Mercado ou no Centro ou no Ônibus ou na Rua. Ou? As opções não eram muitas para um menino preto, pobre e fodido. Sem pai ou mãe, criado por costureira católica e fervorosa. Agora não! Hora de mandar o guia de cegos se foder. Hora de Jonas tocar o terror. Não tinha mais medo da história do moço que havia sido engolido por uma baleia lá na época em que Jesus nem havia nascido. Já sabia que não havia baleias na lagoa.

A madrinha já não precisava suprir nada. Agora era ganhar o pão nosso de cada dia e, quem sabe, o filé mignon também. A loira gostosa que tanto queria apareceu. Numa noite, num depósito, no bairro do Jaraguá. Comeu! Saciar a fome é o que há. Pena que ela não aproveitou muito, não estava com fome também. Antes gritou, chutou, bateu, chorou. Mas os seus braços finos de menina de dezesseis anos não ajudaram muito. Facilmente amarráveis. Matar ou largar? Largou. Grande erro? O pai dela era empresário, fazendeiro, dono de terra. Mandava na saúde, na escola, na polícia. Era gente que podia… Roubar e matar e ninguém fazia nada!

Jonas morreu em um conflito entre polícia e bandido. Ou bandido e bandido? Ou culpado e culpado? Mandados, mandantes. Um tiro na cabeça e a reza fervorosa da madrinha na igreja São Francisco de Assis. Morreu de morte mandada e matada. Mas era traficantezinho novo, viciadinho sem vergonha, estupradorzinho de merda. Ninguém ligava, ninguém entendia muito bem. Mas Bete ligou e muito! Só não para a polícia, ou para imprensa ou para um advogado. Ou? As opções não eram muitas para uma costureira, favelada, semi-analfabeta. E ninguém falava nada.

A bíblia já não adiantava mais. Rezar? Aquele lugar continuava na merda desde que se lembrava. Crianças nasciam, cresciam e morriam, assim como o seu Jonas. E esse era o curso natural da vida na Brej’Al. O velho curso dos corpos que afundam e se decompõe no canal da Levada. Lavados e levados pelas lágrimas das costureiras.

Mas Bete tinha que falar! Seu menino não era mau! Mau era quem tinha lhe roubado, antes mesmo de ele ter nascido. O alimento, a escol(h)a, a bicicleta. Mas ela não era louca! Não podia falar a verdade e como o Jonas de bíblia também não falou. Jonas… Não era um bom nome para seu afilhado, ele que sempre fora corajoso. Ela tinha medo, ela não falava. Não queria ir para Nínive pregar a justiça divina. Mas a justiça ali era feita por quem tinha a arma maior. E ela não tinha armas. Ou tinha? A arma de verdade estava guardada junto às armas de brinquedo. Ela sabia, sempre soube. Os policiais estavam ao lado da padaria, no beco cujo nome não é pronunciável. Matar? Morte. É. Jonas não tinha matado e por que ela então? A lama, os mosquitos, as crianças. Bete chorou. Era horrível. Agora podia entender. Foda-se a arma, nada mais adiantava. O que ia adiantar?

A lagoa ainda era bonita pela tarde. Foi até lá. O local de tantos jovens abandonados, que no fundo só querem o que lhe negam. Bete pensou. Na vida que não tinha tido, nas escolhas que não tinham lhe ofertado, nas promessas que tantas vezes escutou.

Ela e o seu Jonas. Dois marginalizados, como o resto do povo que ali era escondido. Do que adiantava gente como ela? Nunca iria saber. Ou iria? Talvez. A arma ainda estava ali, tocando sua pele, seu quadril. A arma fria que antecipa o frio da morte e que guarda uma bala tão quente. Paradoxos, a vida é cheia deles. O que aconteceria se pudesse ver Jonas mais uma vez? Pediria perdão? Tocaria o terror? Não sabia. Mas queria saber se haviam baleias na lagoa. Esperança. A infância recuperada, ou não. Não é? Um tiro certeiro bem na testa, assim como o de seu afilhado. Problema resolvido. E, ao abrir os olhos, a baleia estava lá. Talvez ela cuspisse Jonas.

– DaSilva é formada em Letras, professora e Utopista. Maceioense em pele, calor e fala. Paulista, segundo sua certidão de nascimento. Gosta de andar descalça, tomar sorvete e comer acarajé. Gostar de cerveja, sururu e tapioca. Leitora assídua de Rubem Fonseca, Graciliano Ramos e Álvaro de Campos. Admiradora declarada das pessoas que circulam nas periferias de sua cidade, rostos anônimos cheios  de marcas e histórias que precisam ser contadas.

Carlos Henrique
Me utilize, reutilize
e até me recicle,
mas nunca
me deixe de lado.
É assustador
o que vou dizer,
e, depois disso,
como um carneiro
que foge dum leão faminto,
você, sem olhar para trás,
bata pernas
para bem
longe
de
mim.
Mas, com fé
que um dia você volte,
te confesso
que de um tempo pra cá,
mais da metade
do que eu tenho
de vida,
está inteiramente
ao seu dispor.
E você
não tem o direito
de me desperdiçar
assim
desse jeito.
 
– Seu nome é Carlos Henrique, mas não curte ser chamado pelo primeiro nome e adora quem o chama pelo segundo. Nada mais nada menos que um estudante de Letras, que ainda não tinha despertado de fato para a poesia, mas que agora quer escrever (e escreve) algo sobre 101% do que seus olhos podem ou não ver. 

Guia

 

Guia 2

Eu fui despertada de meu sono profundo

Vim parar em meio a esta coisa louca a que chamam de vida

Sem preparação prévia e nem manual de instruções,

Pois para viver não existe preparo, não há apenas um rumo.

Temos um emaranhado de caminho

Como riscos que se cruzam num mapa confuso.

Vivo em meio a riscos.

A riscos e palavras, desconexas, conectadas,

Palavras.

Palavras que não dizem nada, que me dizem tudo.

Palavras multiuso, que ajudam, que não ajudam

Que ferem, consolam, deixam solto, interferem.

Um caminho, todos temos que escolher,

Como agir em cada instante, é preciso saber.

Mas sozinha eu não consigo.

Preciso de guia, eu preciso de guiaS.

Que me conheçam, que entendam minhas razões

Meu modo de ser, a linha do mapa que eu

Resolvi seguir.

Quero andar, correr e voar.

quero VER.

SER VISTA. PELO UNIVERSO,

TODO ELE.

Quero FALAR,

OUVIR, SER OUVIDA.

RESPONDIDA.

Falar por mim, falar por outros,

TER VOZ. DAR VOZ.

Quero me descobrir, me achar

e me conhecer.

Quero ficar, ir, viajar,

Rápido, atentamente, dEvagar, dIvagar…

Sem que só eu tenha que ficar.

Quero alguém pra mim. Alguém para me auxiliar

Um bem, um mal, alguém que me admira e deprecia,

Ama e sente raiva, exalta e critica, que dance comigo e me

AmAssE, toda, em qualquer lugar, me beije e me exalte em plena

Luz do dia.

Ele que me afraca, apoia e fortalece,

Xinga e elogia.

Esse tal de ETERNO AMOR,

Esse que como um farol, na escuridão me alumia,

Esse Guia.

Lara Tôrres é uma pessoa exagerada com mil rosas roubadas. Sentimental, fã da Disney, vegeratiana pela causa animal, futura jornalista pelo interesse público e por amar escrever, aspirando a poesia vez ou outra.